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O bafômetro e o pão com mortadela

Crônica · Heitor Graça Antigamente, na volta da Lapa, a gente se preocupava com a curva fechada do Aterro, com a sirene que podia surgir do nada…

O bafômetro e o pão com mortadela
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Antigamente, na volta da Lapa, a gente se preocupava com a curva fechada do Aterro, com a sirene que podia surgir do nada no túnel, com a mancha de óleo na pista molhada. Era uma preocupação, digamos, mecânica. O carro, a noite, a velocidade. Hoje, o garçom que me serve o último chope na Barata Ribeiro já olha com uma certa cumplicidade paternal, como quem diz: cuidado com o sopro.

Fiquei sabendo que agora a coisa ficou mais técnica, mais cheia de etapas. Vão padronizar os procedimentos, disseram. Criaram uma tal fase de triagem, um pré-teste, um sopro de ensaio para ver se o sujeito merece o sopro pra valer. Imagino a cena. A madrugada caindo mansa sobre a Atlântica, a fila de carros, e o agente com seu aparelho que agora parece ter mais fases que vestibular. Um sopro que é só para orientação. "Seu João, o resultado aqui é só um palpite, viu? Agora vamos ao que interessa."

A nova regra também se preocupa com o chamado "álcool residual no trato respiratório superior". Que nome bonito para o restinho de cerveja na boca, para o gosto do vinho que ainda não desceu de vez. A norma prevê um reteste para não confundir o gole recente com a alma embriagada. Penso no meu amigo Zeca, que jurava ter sido multado por causa de um pão com mortadela e vinagre. Agora ele teria direito a uma segunda chance, a um sopro de desempate para provar que a culpa era do sanduíche, não da alma.

Não criaram novas infrações, apenas novos manuais, novos critérios. O resultado é o mesmo, mas o caminho até ele ganhou uma burocracia que talvez sirva para dar ao motorista a sensação de que está participando de um processo justo, quase científico. É o progresso, talvez. Uma época em que até a bebedeira de fim de noite precisa seguir um roteiro bem definido, com triagem e reteste.

Enquanto o chope desce, olho para o trânsito lá fora, um fluxo constante e indiferente a manuais. Será que um dia inventam um aparelho que mede o cansaço, a tristeza, ou a euforia de ter encontrado um amigo por acaso na rua? Isso, afinal, também altera a direção.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Contran define critérios para fiscalização da Lei Seca

Fonte: Agência Brasil