Heitor Graça aborda a importância do nome em nova crônica
O cronista Heitor Graça compartilha sua reflexão sobre o impacto e o significado de um nome no dia a dia.
Crônica · Heitor Graça
O porteiro novo, seu Antenor, tem uma mania bonita: quando me entrega a correspondência, ele lê o meu nome completo no envelope como se fosse um verso. “Heitor de Almeida Graça”. E me olha, esperando uma confirmação. Eu confirmo. Ele sorri, satisfeito por ter acertado o destinatário do mundo. É uma cerimônia de trinta segundos que dá dignidade a uma conta de luz.
Hoje, junto da conta, veio uma notificação da administradora do prédio. Um papel oficial, cheio de parágrafos e números, sobre alguma coisa do condomínio. Peguei o elevador pensando nisso, no peso que uma folha timbrada pode ter. Um carimbo, uma assinatura, e a realidade se reajusta. Para mim, era só um aviso sobre o fundo de reserva. Para outros, pode ser a vida inteira.
Lembrei de uma notícia que li de manhã, entre um gole de café e outro. Falava de 2.451 famílias no Maranhão. Gente de comunidade quilombola, um nome que para nós, do asfalto, soa distante, quase histórico. Agora, por força de uma portaria do Incra, essas famílias foram incluídas no Programa de Reforma Agrária. O nome delas vai entrar numa plataforma digital, num cadastro único, nessas linguagens que Brasília inventa para organizar a esperança.
Não entendo nada de política agrária, e talvez essa medida seja só uma gota no oceano das necessidades. O que sei é que, para cada uma daquelas famílias, um papel timbrado chegou para dizer: este lugar, este chão, tem a ver com vocês. É um reconhecimento. É como o seu Antenor lendo meu nome em voz alta. A pessoa existe, está ali, e o mundo oficial finalmente toma nota.
Da minha varanda, olho os apartamentos vizinhos. Cada janela é um pequeno lote, um território defendido com cortinas e vasos de planta. Imagino o que seja ter a posse da terra onde seus avós e bisavós viveram, não por um contrato de aluguel, mas por direito de memória. Um papel, uma portaria, um nome na lista. Às vezes, a burocracia acerta o verso.
Será que alguém, lá no Maranhão, vai emoldurar a portaria?
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Incra inclui 2.451 famílias quilombolas do MA em reforma agrária
Fonte: Agência Brasil