O ponto de venda não tem dono, só endereço
Crônica · Heitor Graça Tem um sujeito que vende canga na faixa de areia de Copacabana há quanto tempo ninguém sabe ao certo.
Crônica · Heitor Graça
Tem um sujeito que vende canga na faixa de areia de Copacabana há quanto tempo ninguém sabe ao certo. Ele chega cedo, antes do calor apertar, abre a trouxa, espeta a haste na areia e passa o dia gritando preço para turistas que já sabem o preço. Ao final da tarde, recolhe tudo, desaparece pela Barata Ribeiro e volta no dia seguinte, diferente. Às vezes é outro sujeito, mas a haste é a mesma, a trouxa é a mesma, o grito é o mesmo. O ponto ficou. A pessoa passou.
Foi mais ou menos isso que o prefeito Eduardo Cavaliere explicou na terça-feira, ao anunciar o programa Tolerância Zero para a orla entre o Leme e o Leblon: o trabalhador está ali por uma semana no máximo, disse ele. Não é permanente. O que é permanente é o ponto. E o ponto, ao que tudo indica, tem cobrador.
A prefeitura diz ter levantado que facções cobram de duzentos a trezentos reais por dia por cada espaço no calçadão. O secretário de Ordem Pública, Marcus Belchior, mencionou bolivianos, angolanos, venezuelanos na logística de Copacabana. Mil ambulantes ilegais, vinte por cento estrangeiros, vinte e dois depósitos irregulares espalhados pela zona sul. A partir do dia 16, trezentos e vinte agentes municipais em sessenta e nove pontos, revezando a cada doze horas, com drones e câmeras por cima.
Eu moro a quatro quadras da praia e já vi essa conta ser feita antes. Em janeiro, houve apreensões, houve protesto no Arpoador, houve briga com agentes. A haste voltou para a areia alguns dias depois. Não estou dizendo que vai acontecer de novo — estou dizendo que a areia tem memória curta e o calçadão tem memória longa.
O que me detém, mais do que a operação em si, é o detalhe que o prefeito deixou escapar sem querer: o trabalhador não é identificável, disse ele, nem relevante, quem é aquela pessoa naquele dia. Dito assim, com a objetividade de quem administra fluxo, soa frio. Mas é uma descrição precisa de algo que a cidade pratica há décadas: apagar o rosto de quem vende para enxergar só o que é vendido.
A prefeitura orientou os trabalhadores irregulares a se cadastrar em plataformas municipais de emprego e qualificação. É uma saída. Se chega onde precisa chegar, não sei. O calçadão vai estar mais vazio ou vai estar diferente. A haste, essa, é paciente.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · UOL