Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O ingresso que não existe

Crônica · Heitor Graça Minha sobrinha Júlia tem, desde que a conheço por gente, um pacto com a felicidade que envolve guitarras e um certo alvoroço…

O ingresso que não existe
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Minha sobrinha Júlia tem, desde que a conheço por gente, um pacto com a felicidade que envolve guitarras e um certo alvoroço no Maracanã. Para ela, um show não é um evento; é uma data na biografia, um ponto cardeal. E foi com a solenidade de quem anuncia a descoberta de um novo continente que ela me ligou, semana passada, para dizer que havia conseguido. O ingresso para a banda da vida dela. O último.

Ela descreveu a operação com a minúcia de um estrategista de guerra: três telas abertas, o cartão de crédito a postos, o coração na boca. Na hora marcada, o site oficial travou. Caiu. Morreu. E em algum outro canto da internet, um endereço de nome estrangeiro brilhou como um farol na noite, prometendo salvação. O preço era o dobro, quase o triplo, mas quem mede o valor de um instante que se quer eterno?

Júlia comprou. E por dois dias foi a pessoa mais feliz do Rio de Janeiro, planejando a roupa, a companhia, o grito que daria quando a primeira luz do palco se acendesse.

Hoje, leio no jornal que o Ministério da Justiça abriu um processo contra um tal de Viagogo. A matéria fala em “cambistas digitais”, em robôs que compram tudo em segundos para revender mais caro, em sites que não avisam que são apenas um atravessador. O secretário da pasta, um homem de nome Morishita, diz que o consumidor é induzido a pensar que está no canal oficial. E eu só consigo pensar em Júlia.

Ela ainda não sabe, mas talvez aquele ingresso, pelo qual pagou o que não tinha, seja apenas um fantasma digital, um código que não abrirá catraca alguma. E o que o processo administrativo não mede, o que a multa de cem mil reais por dia não alcança, é o tamanho exato de uma pequena desilusão. É o silêncio de um refrão que não será cantado, a roupa que ficará no armário, a juventude que, por um momento, se sente um pouco mais adulta e um bocado mais boba.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Ministério da Justiça processa Viagogo por revenda de ingressos

Fonte: Agência Brasil