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O homem que trocou Copacabana por cinco minutos de bicicleta

Crônica · Heitor Graça Tem uma hora do fim de tarde em Copacabana em que o sol bate de lado na calçada da Barata Ribeiro e o cheiro do mar chega…

O homem que trocou Copacabana por cinco minutos de bicicleta
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Tem uma hora do fim de tarde em Copacabana em que o sol bate de lado na calçada da Barata Ribeiro e o cheiro do mar chega antes do mar. É uma hora boa. Uma hora que, dependendo do quanto você paga para morar por aqui, vai custando cada vez mais caro de contemplar.

Rodrigo Gicovate, ator e servidor público de 37 anos, conhecia bem essa hora. Chegou ao bairro em 2022, dividiu apartamento com três pessoas para não afundar no orçamento, e ainda assim foi vendo o mês apertar. Não era só o aluguel — eram mil e duzentos reais por cabeça num quarto dividido, mas era também o mercado, o transporte, o custo de existir numa cidade que foi, silenciosamente, trocando de público.

Ele procurou quitinetes no Centro. Não achou nada abaixo de dois mil, dois mil e quinhentos. "Quem recebe um salário médio no Brasil consegue pagar isso?", perguntou. A pergunta ficou no ar, e ele foi embora.

Hoje mora sozinho em Ponta D'areia, Niterói, paga dois mil e duzentos de aluguel num apartamento menor, comprou uma bicicleta elétrica e chega ao trabalho em cinco minutos. Cozinha, estuda, reorganizou o dia. A tentativa de assalto perto de casa foi o episódio decisivo — juntou o financeiro com o medo, e a equação resolveu por ele.

O que aconteceu com Rodrigo tem nome e número. Entre maio de 2023 e maio de 2026, o valor médio do metro quadrado para locação no Rio acumulou alta de 42,7%. No mesmo período, o Rio se consolidou como principal destino de estrangeiros no país — 884,5 mil visitantes internacionais só no primeiro trimestre deste ano. Os especialistas falam em expansão dos aluguéis por temporada reduzindo a oferta de contratos tradicionais. Rodrigo fala em "dolarização da economia carioca". "É uma cidade para turista, né?" A frase tem a leveza de quem já fez as malas.

Fico aqui no meu apartamento de Copacabana pensando nisso. No vizinho que foi. No vizinho que vai. Nos que ficam porque herdaram, porque dividem, porque se viram de algum jeito que o mercado ainda não conseguiu precificar. A cidade está linda para quem chegou esta semana. Para quem mora aqui há anos, ela está linda e inacessível, que é quase a mesma coisa que estar indo embora.

Rodrigo diz que fica assustado ao pensar no futuro. Eu entendo. Às vezes olho para a calçada lá embaixo e noto que conheço cada vez menos gente que passa.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Aluguel no Rio sobe 42,7% em três anos e expulsa moradores

Fontes: g1 · BBC News Brasil