Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O Rio que expulsa quem o habita

Análise · Renata Peixoto 42,7% em três anos. Não é a variação de um índice abstrato: é a medida de quantas pessoas deixaram de conseguir morar onde…

O Rio que expulsa quem o habita
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Renata Peixoto

42,7% em três anos. Não é a variação de um índice abstrato: é a medida de quantas pessoas deixaram de conseguir morar onde moravam. Entre maio de 2023 e maio de 2026, o metro quadrado de aluguel no Rio de Janeiro subiu a um ritmo que nenhum salário médio acompanhou. O resultado não é estético — não se trata de bairros ficando mais bonitos ou mais disputados. Trata-se de uma reorganização forçada da cidade, em que quem pode pagar em dólar ou em euro fica, e quem recebe em real vai embora.

O caso de Rodrigo Gicovate, ator e servidor público de 37 anos, condensa o mecanismo com precisão cirúrgica. Morava em Copacabana dividindo apartamento com três pessoas — já uma concessão ao preço — e desembolsava R$ 1,8 mil mensais. Ao buscar quitinetes no Centro do Rio, não encontrou nada abaixo de R$ 2 mil ou R$ 2,5 mil. Mudou-se para Niterói, onde paga R$ 2,2 mil por um apartamento menor, mas sozinho. A cidade que ele deixou não ficou mais acessível: ela simplesmente deixou de ser para ele.

A chave para entender o que está acontecendo está na palavra que o próprio Rodrigo usa: dolarização. O Rio recebeu 884,5 mil visitantes internacionais só no primeiro trimestre de 2026 e se consolidou como principal destino de estrangeiros no país. Quando uma cidade passa a ser precificada para quem converte moeda forte, o mercado local de moradia começa a operar em dois circuitos paralelos — e o circuito do aluguel por temporada, voltado ao turista, corrói sistematicamente a oferta de contratos tradicionais. O imóvel que antes sustentava um inquilino carioca por anos passa a render muito mais em diárias. O proprietário faz a conta. O morador perde o apartamento.

Isso não é uma anomalia do mercado: é o mercado funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar, na ausência de qualquer regulação que proteja a função habitacional da cidade.

Ermínia Maricato já dizia que a cidade brasileira é espolio dos que detêm a propriedade do solo. O que o Rio exibe hoje é uma versão globalizada desse processo: o espolio agora tem câmbio flutuante. E o efeito sobre a mobilidade urbana é direto e imediato. Rodrigo reduziu seu tempo de deslocamento ao se mudar para Niterói, comprou bicicleta elétrica, reorganizou a rotina. O que parece ganho individual é, na escala da cidade, uma derrota coletiva: trabalhadores que deveriam poder morar perto de onde trabalham são empurrados para fora do tecido urbano que frequentam, adensando fluxos sobre uma infraestrutura de transporte já sobrecarregada.

A regulação dos aluguéis por temporada está em debate — os especialistas citados na apuração apontam para isso como caminho necessário. Mas debate não é política pública. Enquanto a Prefeitura do Rio não traduz esse debate em instrumento concreto — zoneamento, cota máxima de unidades por temporada por logradouro, contrapartida habitacional para empreendimentos turísticos —, o que existe é omissão com consequência territorial precisa. Copacabana, a Zona Sul, o Centro: bairros que foram construídos por quem neles morava, esvaziados de seus moradores por uma equação financeira que a gestão pública decidiu, até agora, não interferir.

Rodrigo diz que fica assustado ao pensar no futuro. É uma resposta razoável. Quem pensa no futuro de Niterói, que agora absorve o transbordamento, talvez deva começar a se preocupar também.

Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Aluguel no Rio sobe 42,7% em três anos e expulsa moradores

Fontes: g1 · BBC News Brasil