Crônica revela segredos ocultos em endereços fantasmas do Rio
Heitor Graça reflete sobre os silêncios que marcam a memória e a história carioca.
Crônica · Heitor Graça
Tem um tipo de silêncio que a gente aprende a reconhecer no Rio. É o silêncio dos lugares que deveriam fazer barulho e não fazem. O da loja com a grade fechada no meio da tarde, o do telefone que toca sem que ninguém atenda, o do endereço que, no mapa, aparece como um terreno baldio entre dois comércios que tampouco parecem querer ser encontrados.
Esse silêncio, descobriu-se agora, tem CNPJ.
Entre as dez empresas que mais receberam recursos do Banco Master, quatro carregam as marcas que quem já preencheu cadastro em agência bancária conhece de cor: número de telefone genérico, do tipo (11) 1111-1111. Email do tipo contato@contato.com. Endereço em bairro periférico que, consultado, não entrega nenhuma sede corporativa, nenhuma recepcionista, nenhuma planta aberta com pessoas trabalhando. Sócios que, em algum momento, receberam auxílio emergencial — aquele dinheiro pensado para quem não tinha de onde tirar o próximo almoço.
É um retrato simples. Quase didático. Como se alguém tivesse preenchido o formulário de existência de uma empresa sem se dar ao trabalho de fingir que ela existia de verdade.
O que chama a atenção não é o escândalo, porque escândalo a gente já normalizou como se normaliza o calorão de fevereiro. O que chama a atenção é a economia de esforço. O (11) 1111-1111 é quase uma confissão. É a senha "1234" tatuada na testa. É o crachá com o nome "Fulano" numa festa em que todos se conhecem.
Alguém, em algum momento, sentou numa cadeira, abriu um computador e digitou aquele número sabendo que o número não levava a lugar nenhum. E achou que estava bem assim.
O dinheiro, esse sim, era real. Só as empresas que não eram.
Penso nos funcionários do banco que eventualmente processaram aquelas operações. Nos auditores que assinaram embaixo. Nas planilhas que circularam, nos emails que foram enviados com "att." e ponto final. Toda uma arquitetura de normalidade construída em torno de um endereço que, se você for lá ver, talvez seja um terreno vazio com capim alto e uma garrafa PET esquecida na calçada.
O capim, ao menos, é real. Cresceu ali sem pedir nada a ninguém, sem CNPJ, sem sócio oculto, sem email de contato.
Tem dias em que o capim ganha por pontos.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Quatro das dez maiores beneficiárias do Master mostram sinais
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL