A guerra de Lula, travada nos laboratórios
Análise · Luciano Aragão Diante de uma plateia de cientistas em Niterói, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descreveu a geopolítica…
Análise · Luciano Aragão
Diante de uma plateia de cientistas em Niterói, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descreveu a geopolítica com a clareza de quem enumera as peças faltantes numa linha de montagem. O Brasil, na visão presidencial, não tem os tanques, os aviões, as bombas ou o dinheiro para um confronto direto com os Estados Unidos e a China. A confissão de impotência militar, repetida com ênfase — “não sou louco” —, serviu de preâmbulo para a tese principal: a única guerra que o país pode se permitir é a do conhecimento.
A fala na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) ajusta a retórica da soberania a uma realidade pragmática. Em vez da bravata, o cálculo. Lula propõe substituir o embate nos campos de batalha por uma corrida em laboratórios e salas de aula. "Ao invés de ficar brigando com eles, eu quero derrota-los. Estudando mais do que eles, investindo mais do que eles, pesquisando mais do que eles", afirmou. É a doutrina do desenvolvimento como arma de dissuasão.
Essa estratégia conecta-se diretamente com a defesa dos recursos nacionais, um tema caro ao presidente. Ele mencionou as reservas de petróleo no mar e os depósitos de terras raras como ativos que exigem proteção. A lógica é circular: sem investimento em tecnologia militar própria, o país não garante a posse de suas riquezas. Sem explorar essas riquezas, não há como financiar a ciência que gera a tecnologia. Lula não detalhou como romper o ciclo, mas deixou o diagnóstico.
Enquanto o presidente desenhava sua utopia científica, seu vice, Geraldo Alckmin, lidava com a diplomacia do presente. No mesmo evento, Alckmin classificou como “lamentáveis” os ataques do presidente argentino Javier Milei ao Brasil. A menção ao vizinho funcionou como um contraponto involuntário. Milei, com sua retórica de confronto direto, representa o exato oposto do pragmatismo que Lula tentava vender. Para o governo brasileiro, a ofensa de Buenos Aires é um ruído, enquanto o verdadeiro jogo, mais silencioso e de longo prazo, estaria sendo disputado nas bancadas das universidades federais.
Ao fim, a mensagem de Lula aos cientistas foi também um aceno aos eleitores. Disse que não fará promessas de campanha, pedindo para ser julgado pelas ações do governo. É uma aposta que vincula seu futuro político à capacidade do Estado de transformar discursos sobre inovação em resultados concretos, antes que um competidor com mais tanques e aviões decida que os recursos brasileiros são estratégicos demais para esperar pela ciência nacional.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Lula defende ciência para competir com EUA e China
Fontes: CNN Brasil · UOL