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O dia em que a escola não abriu, de novo

Crônica · Heitor Graça Na Maré, a mãe acorda antes do rádio.

O dia em que a escola não abriu, de novo
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Na Maré, a mãe acorda antes do rádio. Antes de verificar o grupo do WhatsApp da turma, ela já sabe, por um silêncio que a experiência ensinou a decifrar, se o filho vai à escola. O silêncio errado tem textura própria: é o silêncio das janelas fechadas às sete da manhã, das calçadas que demoram a se encher, do barrulho de helicóptero que substituiu o de ônibus. Ela olha para o filho, que já está de uniforme, e diz uma coisa que não é bem uma frase, é um gesto de cabeça. Ele entende. Tira a mochila.

Quantos dias assim cabem num ano? A conta assusta. O Conselho Nacional de Educação, atendendo a uma recomendação do Ministério Público Federal, publicou agora uma resolução para enfrentar exatamente esse vazio — não só o da violência armada, dos confrontos e operações que fecham escolas no Rio de Janeiro e em outros cantos do país, mas também o das enchentes, das secas, dos eventos climáticos que em 2023 suspenderam aulas em 34% das escolas brasileiras, e em 2024 dobraram a média nacional de dias perdidos, de cinco para dez.

Dez dias. Em média. Médias escondem os extremos, e todo mundo que mora perto de um morro ou de um rio sabe que a média não mora no seu bairro.

A resolução estabelece que suspender as aulas presenciais não pode ser a resposta automática, o reflexo condicionado das secretarias diante de qualquer crise. Exige planejamento prévio, articulação entre União, estados e municípios, definição de responsabilidades — palavras que, no papel, têm a frieza de um organograma, mas que na vida daquela mãe na Maré significam outra coisa: alguém, em algum lugar, finalmente escreveu que o direito à educação do filho dela não pode ser interrompido sem que ninguém precise responder por isso.

A Redes da Maré esteve nessa construção. O Fórum Estadual de Educação, também. Uma defensora pública chamada Maria Júlia Miranda, que trabalha com infância. São nomes que não aparecem em manchete, mas que aparecem nessa resolução como aparecem certas pessoas nas histórias: discretamente, fazendo o que precisa ser feito.

O filho ficou em casa naquele dia. Mas a resolução existe agora, e isso é diferente de ontem — não porque resolução mude de manhã o que bala e enchente construíram em décadas, mas porque alguma coisa foi escrita, e escrever é o primeiro gesto de quem pretende não esquecer.

A mãe fechou a janela. O silêncio continuou lá fora. Mas desta vez havia um papel dizendo que ele não deveria durar para sempre.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: CNE publica resolução para garantir 200 dias letivos em crises

Fonte: Agência Brasil