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O calor matou. A conta ainda está sendo feita

Análise · Clara Verdi Dez mil e seiscentos e cinquenta.

O calor matou. A conta ainda está sendo feita
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Análise · Clara Verdi

Dez mil e seiscentos e cinquenta. Esse é o número de mortes em excesso registradas na Europa durante a semana de 22 a 28 de junho, quando a onda de calor atingiu seu pico na França, na Espanha, na Alemanha e no Reino Unido. Não é o total da onda. É o total de uma semana. E mais de nove mil dessas mortes foram de pessoas com 65 anos ou mais — o que não é uma estatística demográfica neutra, mas uma sentença sobre quem a Europa deixa exposto quando a temperatura sobe.

Convém não tratar esses dados como novidade meteorológica. A Europa tem um histórico de mortes em ondas de calor que deveria envergonhar seus governos há pelo menos duas décadas. Em agosto de 2003, a França perdeu entre 14 mil e 19 mil pessoas em menos de um mês — a maioria idosos, muitos encontrados dias depois mortos em apartamentos fechados enquanto seus filhos estavam de férias. O trauma foi suficiente para criar sistemas de alerta, cadastros de vulneráveis, planos de contingência. Não foi suficiente para que o continente aprendesse a lidar com o calor como um problema estrutural, e não como uma anomalia a ser gerenciada.

O que a EuroMOMO — rede apoiada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela OMS — publicou nesta semana não é apenas dado epidemiológico. É o registro de uma falha de sistema. Nas oito semanas anteriores à onda, a mortalidade combinada dos 27 países monitorados ficava, em média, 500 mortes por semana abaixo do nível habitual. Uma semana de calor extremo apagou esse crédito de vida e multiplicou a dívida por vinte. Um patamar que seria de 70 mil mortes naquela semana passou de 80 mil.

"É difícil explicar esse alto excesso de mortalidade por qualquer outra causa que não seja o calor extremo", disse Lasse Vestergaard, médico-chefe do Statens Serum Institut da Dinamarca, que abriga a rede. Não havia surtos de Covid-19 ou outros fatores relevantes. O calor foi o assassino, e a ciência não encontrou cúmplice.

Cientistas já afirmaram que a onda de calor do final de junho teria sido praticamente impossível sem as mudanças climáticas provocadas pelo ser humano. Isso transforma o debate: não se fala mais em desastre natural, mas em consequência administrada de decisões políticas e econômicas acumuladas. A Bélgica registrou seu maior pico de mortes em excesso em qualquer onda de calor desde que os registros começaram, no ano 2000. A França e a Bélgica foram os únicos países a registrar mortalidade muito alta na última semana de junho, segundo os próprios dados da EuroMOMO — o que sugere disparidades profundas nas respostas nacionais que ainda precisam ser investigadas.

O que o número 10.650 esconde é a geometria social da catástrofe. Quem são os idosos que morreram? Quantos viviam sozinhos? Quantos estavam em lares de cuidados com sistemas de ventilação inadequados? Quantos eram imigrantes sem redes de amparo? A EuroMOMO não publica dados desagregados por nacionalidade, e essa opacidade é ela mesma uma escolha política. Saber quem morreu é o primeiro passo para decidir quem proteger — e a Europa, sistematicamente, prefere a média ao rosto.

Os dados ainda podem ser revisados nas próximas semanas à medida que mais informações chegarem. O número pode subir. Quase certamente não vai cair.

Clara Verdi é correspondente da Xaplin em Bruxelas.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Europa registra mais de 10 mil mortes em excesso durante onda

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.