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Caracas sob os escombros: o que os números escondem

Análise · Clara Verdi Há uma aritmética cruel nos desastres.

Caracas sob os escombros: o que os números escondem
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Análise · Clara Verdi

Há uma aritmética cruel nos desastres. Quando Jorge Rodríguez Gómez anunciou nesta terça-feira que a Venezuela contabiliza 4.734 mortos e 16.740 feridos após os terremotos de 24 de junho, o número já não era mais notícia no sentido em que notícia funciona — era auditoria. A fase em que câmeras acompanham o resgate de sobreviventes passou. O que resta é a contagem dos que não sobreviveram e a arquitetura silenciosa do que vem depois.

Os dois abalos — 7,2 e 7,5 na escala Richter, separados por menos de um minuto — ocorreram a 200 quilômetros de Caracas. Mas foi La Guaíra e a própria capital que concentraram o colapso: 190 edifícios completamente destruídos, 856 afetados, 20 mil pessoas distribuídas em 107 acampamentos transitórios montados sobretudo em escolas. Escolas que, naturalmente, deixaram de ser escolas. A Venezuela entra assim em uma segunda crise dentro da crise — e quem conhece a história recente do país sabe que o país já carregava, antes do chão se mover, uma estrutura institucional e de infraestrutura profundamente fragilizada por anos de colapso econômico e isolamento político.

É esse contexto que os números brutos não informam. A Venezuela de 2025 não é o país que recebeu o terremoto de Caracas de 1967, quando o Estado dispunha de recursos petrolíferos e capacidade técnica para uma resposta soberana. O país que hoje contabiliza seus mortos é o mesmo que atravessou uma década de hiperinflação, emigração em massa e deterioração sistemática de hospitais e prédios públicos — o tipo de deterioração que faz um sismo de magnitude alta render o dobro de colapsos que renderia em outra circunstância.

A solidariedade internacional — Estados Unidos, China, Brasil, México, Reino Unido enviando equipes e insumos — é, ao mesmo tempo, gesto genuíno e confissão implícita: o Estado venezuelano, sozinho, não teria como responder na escala necessária.

O Brasil enviou medicamentos e insumos médicos. Delcy Rodríguez agradeceu publicamente ao governo brasileiro. Há nesse gesto diplomático uma ambiguidade que merece atenção: Brasília e Caracas mantêm uma relação tensa, delicada, atravessada por disputas sobre legitimidade política e direitos humanos, e é precisamente nos momentos de catástrofe que essa tensão se suspende — não se resolve. O humanitário cria uma pausa; não cria um entendimento.

O que vem depois é sempre a parte mais difícil e a menos coberta. As 128.324 famílias atendidas precisarão de mais que atendimento; as 20 mil pessoas em acampamentos provisórios precisarão de casas em um país onde construir casa já era problema antes do terremoto. A fase de reconstrução — que o jornalismo geralmente abandona quando abandona o drama imediato — vai revelar se a Venezuela tem, ou consegue articular, as condições mínimas para não transformar um desastre natural em uma cicatriz geracional.

Por enquanto, o número é 4.734. Amanhã será outro.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Venezuela contabiliza 4.734 mortos após terremotos de junho

Fontes: Agência Brasil · g1

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.