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A selva de pedra e o tesouro que Maria Eliene guarda

Crônica · Heitor Graça Do lado de fora da reserva, uma grua. Do lado de dentro, uma mangabeira. Não é metáfora.

A selva de pedra e o tesouro que Maria Eliene guarda
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Do lado de fora da reserva, uma grua. Do lado de dentro, uma mangabeira.

Não é metáfora. É a paisagem real do sul de Aracaju, onde o concreto avança em fileira e as árvores seguram o chão com a teimosia de quem já viu muita promessa de progresso passar sem deixar sombra para ninguém.

Maria Eliene Santos sabe disso de cor. Sabe porque acorda todo dia dentro dessa fronteira invisível que separa o que foi vendido do que ainda resiste. Presidente da associação que organiza as catadoras de mangaba da cidade, ela tem uma frase que não sai da cabeça de quem ouve: "A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade."

Não há exagero nenhum aí. O território das catadoras, no sul da capital sergipana, existe há mais de oito décadas como espaço de trabalho, memória e sustento de famílias que, em sua maioria, são negras. São duas áreas protegidas contíguas, separadas apenas por uma avenida, que juntas formam um único pedaço de mundo onde se colhe, se maneja, se passa adiante o que se sabe. A mangaba cai no momento certo ou não presta. Aprender isso leva tempo. Preservar esse tempo leva luta.

No início de junho, a reserva recebeu a 5ª Festa da Colheita. No meio do evento, as famílias lançaram o Plano de Manejo Popular — documento escrito coletivamente, com cartografia, memória histórica e tudo. Enquanto construtoras planejam seus lançamentos em escritórios refrigerados, as catadoras planejam os delas debaixo das próprias árvores.

No ano passado, a associação ganhou o Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, do Ministério do Meio Ambiente, na categoria Povos e Comunidades Tradicionais. Vieram R$ 45 mil, que foram para oficinas, estudos de beneficiamento da fruta e projetos de turismo de base comunitária, com apoio da Universidade Federal de Sergipe e da Embrapa. Dinheiro pequeno para o tamanho do que protegem. Mas foi o suficiente para fazer barulho.

Há uma certa dignidade absurda em tudo isso. No fato de que mulheres negras, num terreno cercado de especulação imobiliária, precisam organizar associação, ganhar prêmio, elaborar plano de manejo e acionar universidade só para continuar fazendo o que sempre fizeram: pegar a mangaba que cai, antes que alguém erga um muro onde a árvore estava.

A grua gira lá fora. A mangabeira fica.

Por enquanto, Maria Eliene ainda guarda o tesouro.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Catadoras de mangaba enfrentam pressão imobiliária em Aracaju

Fonte: Agência Brasil

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