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O mineiro que foi ensinar a Indonésia a parar a bola

Análise · Marcos Tibúrcio Há algo de improvável, e por isso mesmo de muito brasileiro, na história de Fábio Guedes.

O mineiro que foi ensinar a Indonésia a parar a bola
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Análise · Marcos Tibúrcio

Há algo de improvável, e por isso mesmo de muito brasileiro, na história de Fábio Guedes. Goleiro baixo demais para a carreira de atleta, preparador físico que a Indonésia não chamou — foi ele quem foi até a Indonésia. Dois anos atrás, o mineiro de Uberaba fez as malas e atravessou doze fusos horários para trabalhar no Bornéo FC Samarinda, clube da ilha de Bornéu, num país onde o futebol disputa espaço com o badminton e que não vê uma Copa do Mundo desde o século passado.

A história é pequena nos fatos e grande no que revela. Ela diz algo sobre o que o Brasil exporta quando exporta futebol — e não é apenas jogador. É método, é linguagem, é uma certa forma de entender o jogo que foi construída durante décadas nas peladas de subúrbio e nos treinos de base que ninguém fotografa.

Fábio descreve essa bagagem com precisão: técnica aliada à resolução de problema, o improviso como disciplina, cenários de treino que imitam o caos do jogo real. É a escola brasileira de goleiros — uma especialidade que o país desenvolveu quase sem perceber, e que hoje circula pelo mundo nas malas de preparadores que partem porque o Brasil, paradoxalmente, não cabe em todos os que o Brasil forma.

— Quando eu recebi esse propósito para sair do Brasil e ir para a Ásia mostrar o que é um treinamento de goleiro, o que é a escola do goleiro brasileiro, foi um marco muito grande na minha carreira.

O que chama atenção não é o destino exótico. É o modelo. O Bornéo FC tem recebido brasileiros no elenco — Douglas Coutinho, ex-Athletico e Cruzeiro; Cleylton, ex-Grêmio e Chapecoense — e o clube parece entender que o conhecimento tático brasileiro vale mais do que a simples importação de corpos. Contratar um preparador, e não apenas um jogador, é uma decisão que separa clube de projeto de clube de vitrine.

A Indonésia, por sua vez, é um campo fértil e urgente. O país tem 270 milhões de habitantes, uma federação que acordou para o futebol e uma geração jovem que quer jogar. O que falta, ainda, é a camada técnica que transforma talento em consistência. É exatamente aí que Fábio Guedes se encaixou — e o comprometimento dos atletas indonésios, que ele mesmo destacou, sugere que o terreno recebe bem a semente.

Neste junho de 2026, enquanto a Copa do Mundo acontece nos gramados dos Estados Unidos, México e Canadá, a Indonésia assiste de fora — como faz há quase cem anos. Mas há brasileiros trabalhando para que isso mude. Não os que jogam lá. Os que ensinam. E essa distinção, no futebol como na educação, é onde o futuro costuma começar.

Fábio Guedes sonha em formar um goleiro de alto nível para o futebol internacional. É um sonho longo, do tipo que não cabe numa temporada. Mas quem deixou o Brasil para ensinar uma ilha distante a parar a bola sabe, melhor do que ninguém, que sonho longo não é sonho pequeno.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Preparador de goleiros mineiro atua há dois anos na Indonésia

Fonte: ge

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