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A Copa como palco — e o palco como negócio

Análise · Marcos Tibúrcio Há um momento em que o evento maior que o esporte deixa de ser metáfora e vira descrição literal.

A Copa como palco — e o palco como negócio
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há um momento em que o evento maior que o esporte deixa de ser metáfora e vira descrição literal. A Copa do Mundo de 2026 chegou a esse ponto antes mesmo do apito inicial. Quando Paris Hilton ocupou as arquibancadas de um jogo entre Estados Unidos e Turquia com a filha no colo, e Bill Gates sentou entre outros bilionários para ver a estreia americana contra o Paraguai, o futebol não era mais o protagonista exclusivo da cena. Era o cenário.

Isso não é novidade absoluta — celebridades sempre gravitaram em torno de Copas. Mas a edição de 2026, disputada em três países e com sede principal nos Estados Unidos, elevou essa lógica a outro patamar. Hollywood não foi ao futebol. O futebol foi a Hollywood, e abriu a porta dos fundos para ela entrar pelo tapete vermelho.

A própria FIFA entendeu o jogo há algum tempo. A presença de Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e de outros ídolos históricos na cerimônia de abertura na Cidade do México não é saudosismo — é política deliberada de marca. Ex-jogadores lendários viram convidados de honra, peças de uma narrativa que a entidade precisa sustentar: a de que o futebol carrega história, peso, tradição. Enquanto o espetáculo ao redor fica cada vez mais leve, os símbolos do passado são convocados para dar lastro.

David Beckham resolve essa equação melhor do que ninguém. Nas pausas para hidratação do jogo entre Brasil e Escócia, ele não estava assistindo — estava trabalhando. Pelo menos oito marcas colocam seu rosto nas televisões americanas durante a Copa. O homem transformou a própria imagem em infraestrutura.

O que está em jogo aqui vai além da vaidade ou do oportunismo. Os Estados Unidos são o maior mercado de entretenimento do planeta, e o futebol passou décadas tentando conquistá-lo sem sucesso definitivo. A Copa de 2026 é, para a FIFA e para as federações, uma janela que não se repetirá tão cedo nessas condições. Se Jamie Foxx e Sofia Vergara sentam nas primeiras fileiras e postam nas redes, o futebol chega a um público que nunca abriu um jornal esportivo — e talvez nunca vá abrir. Essa é a lógica, e ela tem uma racionalidade que seria desonesto ignorar.

O perigo, claro, é o inverso: que o esporte se torne acessório do espetáculo que o cerca. Que o gol passe a competir com o clique da câmera voltada para a arquibancada famosa. Que a narrativa da partida seja engolida pela narrativa das presenças.

Por enquanto, o equilíbrio ainda existe — mas é frágil. A Copa tem jogos que falam por si, tem dramas que dispensam figurino. O problema não é o espetáculo em volta. O problema é quando o espetáculo em volta começa a achar que o campo é detalhe. Esse dia ainda não chegou. Mas a Copa mal começou.

Marcos Tibúrcio, chefia de Esporte

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Celebridades marcam presença nos jogos da Copa do Mundo 2026

Fonte: ge

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