A PEC da 6x1 e o preço de pressionar Alcolumbre
Análise · Beatriz Fonseca Há uma diferença relevante entre pressão política e ultimato público.
Análise · Beatriz Fonseca
Há uma diferença relevante entre pressão política e ultimato público. Pedro Uczai, líder do PT na Câmara, atravessou essa linha na terça-feira, 7, ao anunciar que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, seria declarado "inimigo dos trabalhadores" caso não enviasse a PEC do fim da escala 6x1 à CCJ até a semana seguinte. A resposta de Alcolumbre veio em nota, com linguagem institucional e recado inequívoco: "esse tipo de ameaça e tentativa de intimidação não será mais tolerado".
O episódio revela menos sobre a PEC em si do que sobre o estado da relação entre o governo Lula e o Senado. A proposta chegou à Casa em fins de maio. Não tem relator designado. Não foi distribuída à CCJ. Alcolumbre, segundo pessoas próximas a ele, sinalizou a pelo menos dois aliados que não pretende colocar o texto em votação antes das eleições. O que está parado não é burocracia — é uma decisão.
O pano de fundo importa. Os dois não conversaram pessoalmente desde abril, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para vaga no STF. Desde então, Alcolumbre reclama, em caráter reservado, de uma campanha nas redes sociais que atribui ao governo e que teria por objetivo pressioná-lo. A fala de Uczai caiu nesse ambiente já deteriorado — e funcionou, na prática, como combustível para que Alcolumbre endurecesse a posição pública.
Vale observar o que o presidente do Senado escolheu dizer: "Quem realmente pretende contribuir para o avanço da PEC respeita o devido processo legislativo. Ameaças e constrangimentos institucionais não aceleram a tramitação; apenas afrontam a independência dos Poderes." É uma frase que faz duas coisas ao mesmo tempo — reafirma prerrogativa institucional e, implicitamente, devolve ao PT a responsabilidade pelo atraso. O argumento é: foram vocês que dificultaram, não eu.
Do ponto de vista do governo, a estratégia tem custos visíveis. A PEC da 6x1 é tratada internamente como prioridade eleitoral — tema com apelo popular mensurável, capaz de mobilizar trabalhadores urbanos em ano de disputa municipal e de posicionamento para 2026. Quanto mais o texto fica parado, mais o PT precisa explicar por que uma proposta que aprovou na Câmara não avança no Senado. A resposta óbvia — Alcolumbre não quer — cria o incentivo para declarações como a de Uczai. O problema é que esse tipo de declaração tende a consolidar exatamente o impasse que pretende resolver.
Alcolumbre aguarda, segundo seu entorno, uma conversa direta com Lula. Não há registro de que essa conversa esteja agendada. O que há é uma proposta aprovada em uma Casa, paralisada na outra, e dois lados que estão falando para a imprensa quando deveriam estar falando entre si.
A questão que fica não é se Alcolumbre vai ceder à pressão — a nota de terça sugere que não, ao menos não desta forma. A questão é se o governo tem interlocução suficiente com o Senado para destravar o que decidiu que é urgente, ou se transformou uma disputa de calendário legislativo em questão de honra para os dois lados.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Alcolumbre rejeita ultimato do PT sobre votação da PEC 6x1
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL