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A matemática brutal da guerra

Análise · Clara Verdi Há uma aritmética primitiva que precede qualquer tratado de direito internacional, qualquer convenção de Genebra.

A matemática brutal da guerra
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há uma aritmética primitiva que precede qualquer tratado de direito internacional, qualquer convenção de Genebra. É a aritmética do olho por olho, do dente por dente, a contabilidade crua da vingança. Quando o comando militar do Irã anuncia que matará um soldado americano para cada cidadão iraniano morto, o que se ouve não é apenas a retórica de um regime acuado, mas o eco de uma lógica ancestral, a mais antiga e brutal das relações entre inimigos.

A declaração, feita na sexta-feira, é a resposta verbal a uma ofensiva que já dura treze noites. Treze noites de explosões que rasgam o céu persa de Qeshm a Isfahan, da base naval da Guarda Revolucionária no norte à província de Fars no sul. Um porta-voz iraniano acusou Washington de usar contra seu país um arsenal que estaria guardado para uma Terceira Guerra Mundial, um armamento nunca antes testado em combate. A hipérbole talvez sirva à propaganda, mas descreve a sensação de ser o campo de provas para a fúria de uma potência ferida.

Enquanto isso, longe do campo de batalha, em uma rede social, Donald Trump pratica outro tipo de guerra, a da diplomacia por afirmação. Ele escreve que Xi Jinping e Vladimir Putin lhe deram a palavra de que não venderão armas a Teerã. A China e a Rússia, assim, seriam neutralizadas por garantias pessoais. O mundo se encolhe, a geopolítica se resume a uma conversa entre homens fortes, e a palavra de um presidente, mesmo que dita ao vento digital, adquire o peso de um fato consumado. A guerra se faz com bombas e com posts.

O que resta, então, para o Irã? Resta a promessa da retaliação simétrica. Um por um. A frase transforma a morte em moeda de troca, em um cálculo desesperado de paridade. Não é uma estratégia militar complexa, mas uma declaração de intenção que recusa a assimetria do conflito, onde um lado ataca do céu e o outro conta seus mortos no chão. É a tentativa de impor um custo humano direto ao agressor. E de lembrar ao mundo que, na contabilidade final da guerra, o valor de uma vida, para quem a perde, é sempre o mesmo.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã ameaça matar um militar dos EUA a cada iraniano morto

Fontes: g1 · UOL