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A fúria imóvel do Japão

Análise · Clara Verdi As imagens que chegam de Kyushu — a parede de um shopping esvaziada como um cenário, uma nuvem de poeira suspensa…

A fúria imóvel do Japão
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

As imagens que chegam de Kyushu — a parede de um shopping esvaziada como um cenário, uma nuvem de poeira suspensa sobre a cidade, pontes retorcidas sobre rios mudos — são, ao mesmo tempo, familiares e intoleráveis. O Japão treme outra vez. A terra se move com uma violência de 7,1 na escala de Richter, a dez quilômetros de profundidade, e o léxico da catástrofe se repete com precisão litúrgica: escombros, sirenes, feridos, usinas de energia desligadas. Há sempre um alerta de tsunami, depois cancelado. Há sempre a fala sóbria de um primeiro-ministro em Tóquio prometendo uma força-tarefa. Há sempre a lembrança de que o arquipélago repousa, inquieto, sobre o Círculo de Fogo do Pacífico.

Mas a repetição não aplaca o terror; ela o aprofunda. O que a câmera aérea captura em Kumamoto não é apenas a destruição material, o colapso de concreto e vigas. É o registro de um instante em que a mais sofisticada ordem humana é lembrada de sua absoluta fragilidade. O Japão, esse monumento à resiliência e à técnica, à capacidade de prever, construir e reconstruir contra a vontade do planeta, é obrigado a se curvar. Os trens param. As fábricas de microchips da TSMC e da Sony, motores de um futuro global, evacuam seus funcionários. O cotidiano é suspenso por uma força que não se negocia.

O tremor expõe a verdade geológica sobre a qual se ergue a terceira maior economia do mundo. A normalidade japonesa é uma negociação permanente com o abismo. Cada edifício é um tratado de paz com a placa tectônica, cada simulacro de evacuação é um ensaio para o inevitável. A primeira-ministra Sanae Takaichi alerta para a possibilidade de novos abalos, e todos sabem que não é uma formalidade. É uma certeza.

O resto do mundo assiste a essa fúria com uma mistura de compaixão e distanciamento. Para nós, é um espetáculo terrível, mediado pela tela. Para os moradores de Kyushu, é a vida real rompendo o chão sob seus pés. As dezenas de feridos, os 150 mil orientados a buscar refúgio, os incêndios que se seguem ao abalo: são eles os protagonistas silenciosos de um drama que, para o Japão, nunca tem um ato final.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

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Fontes: g1 · CNN Brasil