Crônica de Heitor Graça analisa poder da balança e da arma
Heitor Graça reflete sobre os símbolos da farmácia e da polícia, explorando seus significados e a dualidade de poder na sociedade.
Crônica · Heitor Graça
Da minha janela, a cruz verde da farmácia da esquina pisca sem descanso. De dia, é um enfeite supérfluo. De noite, uma promessa. Promete alívio para a dor de cabeça, o xarope para a tosse do vizinho, o antiácido para a consciência pesada do domingo. Promete um certo tipo de ordem, onde todo mal-estar tem um remédio correspondente numa prateleira. Eu sempre gostei dessa certeza. Era um dos poucos faróis confiáveis da cidade.
Até que li sobre Humberto e Karina. Ele, 26 anos; ela, 38. Madrugada em uma farmácia da Zona Norte de São Paulo, que para mim poderia ser esta aqui de baixo, na Barata Ribeiro. A luz fria, o silêncio que só quem já precisou de um remédio às três da manhã conhece. E então dois homens que não queriam dinheiro do caixa. Queriam as canetas que prometem um corpo mais magro. Ignoraram as notas, as moedas, e foram direto à geladeira, como se ali estivesse o verdadeiro tesouro. Que, pelo preço de R$ 1,4 mil, talvez seja.
Houve uma reação, um tiro. Karina, a farmacêutica, caiu no chão. Humberto se escondeu atrás do balcão e agora, em vez de sonhar com um curso de Farmácia, precisa lidar com a memória de sua colega morta. Tudo por uma caneta. Uma pequena seringa moderna que virou objeto de desejo e de assalto, um atalho violento para a felicidade que se vende em miligramas.
Penso nos funcionários da farmácia aqui de baixo. O rapaz do caixa que sempre me pergunta do Flamengo, a moça de óculos que tem uma paciência infinita para decifrar a letra do meu médico. Vejo-os agora sob outra luz. Não são apenas vendedores de remédios, mas guardiões de pequenos cofres refrigerados, onde o que se estoca não é apenas a insulina, mas a vaidade e o desespero do nosso tempo.
Não sei se o problema é o preço do remédio ou o preço que se paga para ter o corpo que nos dizem para ter. Talvez sejam a mesma coisa, afinal. O que sei é que a cruz verde lá fora já não me parece um sinal de alívio. Ela pisca agora como um alerta. E eu me pergunto que outras promessas de farmácia podem, de uma hora para outra, terminar com uma arma apontada na cabeça.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Roubos de canetas emagrecedoras traumatizam funcionários de farmácias
Fontes: g1 · BBC News Brasil