Ancelotti assiste a jogo no Engenhão
Carlo Ancelotti foi ao Nilton Santos não para assistir a um jogo, mas sim a uma missa, com seus santos e demônios.
Análise · Marcos Tibúrcio
Carlo Ancelotti não foi ao Nilton Santos para ver um jogo. Foi para assistir a uma missa, com seus santos e demônios. Um italiano, dono de quatro orelhudas da Champions, sentado numa tribuna de honra do nosso campeonato de pontos corridos, onde cada rodada é uma batalha de infantaria no barro. Estava ali na companhia de homens de gravata, Rodrigo Caetano e Juan, mas seu olhar buscava os homens de meião. Os candidatos à camisa que um dia vestiu Pelé.
O ato em si é simbólico. O novo técnico da Seleção, antes mesmo de anunciar seu primeiro escrete, pisa no concreto de um estádio brasileiro para ver Botafogo e Palmeiras. Não em um amistoso festivo, não em uma final de taça, mas em uma jornada ordinária da 26ª rodada. Ele poderia ter se trancado em sua sala na Gávea, assistindo a dezenas de partidas em monitores de alta definição, com o silêncio asséptico que a tecnologia permite. Escolheu o ruído. A proximidade. O murmúrio que sobe das gerais e não é captado por microfone algum.
O que o italiano buscava na grama
Sua conversa com Abel Ferreira antes da bola rolar foi um breve armistício entre dois mundos. O europeu que chegou e conquistou a América e o europeu que agora tenta conquistar o único país que manda no mundo da bola. O que se diz num encontro desses? Abel talvez tenha explicado a vertigem que é treinar por aqui; Ancelotti, com o cenho franzido de quem já viu de tudo, talvez apenas tenha escutado. A outra ponta da conversa foi com Bellão, o interino do Botafogo — a imagem perfeita do nosso futebol, onde o provisório tem raízes fundas.
Claro, a visita na semana da convocação é um recado para quem joga aqui. Uma sinalização de que o passaporte não é pré-requisito e de que o talento que brota em nossos campos ainda tem valor. É possível, e talvez até provável, que essa leitura seja apenas a mais otimista. Pode ser que, ao fim, a lista que sairá na quarta-feira seja composta majoritariamente por quem atua sob os holofotes do Velho Continente.
Mas por noventa minutos, o homem que comandou Kaká, Cristiano e Benzema foi um de nós. Um espectador. Um estrangeiro no Engenhão, tentando decifrar o enigma de um futebol que não se explica em planilhas, apenas se vive. O que ele viu naqueles atletas que nós, da arquibancada, não vemos mais?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge