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Ancelotti observa Fluminense e Botafogo no Engenhão

O técnico do Real Madrid, Carlo Ancelotti, acompanhou o clássico carioca no Estádio Nilton Santos, observando talentos.

Ancelotti observa Fluminense e Botafogo no Engenhão
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

O homem chegou à paisagem de concreto do Nilton Santos como quem chega para ver um bicho raro. Acompanhado da liturgia da CBF — Rodrigo Caetano, Juan, as pastas, os crachás —, Carlo Ancelotti pisou no estádio que os burocratas chamam de olímpico e a arquibancada insiste em chamar de Engenhão. Foi ali, para um Botafogo e Palmeiras, que o novo técnico do Brasil decidiu começar a busca pela Seleção de 2030. Não numa sala em Zurique, não diante de um tablet com estatísticas de passes. No campo.

O gesto, por si só, diz mais do que a frase protocolar sobre uma “nova geração”. Há uma escolha evidente em começar pelo Brasileirão, um campeonato que tantos outros já trataram como quintal. Ancelotti, dono de orelhudas que o futebol daqui só vê pela televisão, poderia ter mandado um auxiliar, um drone, um olheiro com um bloco de notas. Mas foi ele. O italiano de sobrancelha arqueada foi ver de perto a matéria-prima do seu ofício: gente de carne e osso correndo atrás de uma bola.

Conversou com Abel Ferreira, o português que trata cada lateral como uma batalha existencial. Cumprimentou Bellão, o interino do Botafogo, o tipo de personagem que só o futebol brasileiro produz, o homem chamado para segurar o leme no meio da tormenta. Não foi um encontro de pranchetas, mas um ritual. Um reconhecimento de território. Ali, no gramado batido e na arquibancada que conhece mais derrotas que vitórias, reside a verdade que nenhuma planilha de desempenho alcança.

A escolha pelo Engenhão é simbólica. Não foi ao Maracanã, o templo, nem ao Morumbi, o colosso. Foi a um estádio funcional, moderno, mas com alma de bairro. Um palco de dramas recentes, de glórias adiadas e de uma teimosia que é, talvez, a melhor definição do nosso futebol. Ancelotti não foi ver craques consagrados. Foi procurar o indício de um, o começo de outro, o suor de quem ainda sonha com a primeira convocação. Ele foi ver quem tem fome.

Claro, a presença pode ser apenas um movimento de relações públicas, um aceno para agradar a imprensa local e justificar o salário. A possibilidade existe, e seria ingênuo descartá-la. Mas a imagem que fica é outra. É a do artesão que insiste em tocar a madeira antes de esculpir. A primeira convocação dirá se ele viu algo que os outros não viram, ou se foi apenas um turista de luxo em nosso velho e combalido campeonato.

A Seleção, afinal, não se monta com nomes. Monta-se com gente. E gente, para quem entende do riscado, se conhece é no olho. Ou de preferência, da beira do campo, sentindo o cheiro da grama e o murmúrio de quem paga ingresso para sonhar.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Ancelotti vai ao Nilton Santos antes de 1ª convocação para 2030

Fonte: ge