Vinte e quatro minutos
Crônica · Heitor Graça Ailton tinha 65 anos. A gente sabe do nome dele, e da idade, porque os jornais disseram.
Crônica · Heitor Graça
Ailton tinha 65 anos. A gente sabe do nome dele, e da idade, porque os jornais disseram. Sabemos também do nome de Vêronica, que tinha 43. São números que se instalam na cabeça da gente numa manhã de terça, aqui em Copacabana, enquanto o café esfria e o barulho dos ônibus na Nossa Senhora parece contar uma história diferente, mais mansa.
Dizem que, depois das facadas, ela caiu na rua. O nome da rua, vejam só, era Dezessete de Agosto. Um nome de data, de coisa marcada no calendário, como um aniversário ou um feriado que ninguém mais lembra por quê. E ali, naquele asfalto de Osasco, vieram os homens do Samu. Fizeram o que sabem fazer. O que tentam fazer.
Foram vinte e quatro minutos. Quase meia hora. É um tempo danado de longo quando se está esperando alguma coisa. O tempo de um episódio de seriado, o tempo de assar um bolo pequeno. O tempo de alguém, com as mãos sobre o peito de uma mulher de 43 anos, empurrar a vida de volta para dentro. Um minuto, dois, dez, vinte. Vinte e quatro. Pressiona, solta. Pressiona, solta. Um ritmo contra o fim do ritmo.
Eu fico imaginando o suor na testa desses homens. A sirene já desligada, só o silêncio da rua partida pelos sons do esforço. Moradores olhando das janelas. O filho dela, que também quase foi atingido, talvez estivesse perto, vendo aquela dança desesperada. Vinte e quatro minutos de esperança metódica, técnica, insistente. Mas há coisas que tempo nenhum conserta.
O homem de 65 foi preso. A notícia termina aí. Mas eu fico pensando nos outros números, naqueles que não saem no papel. Sobretudo naqueles vinte e quatro minutos em que um punhado de gente se recusou a deixar Vêronica ir embora.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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