Venezuela perde seis por cento do PIB em colapso econômico
Análise · Clara Verdi Seis por cento do PIB. A proporção parece técnica, quase administrativa — o tipo de dado que cabe numa nota de rodapé…
Análise · Clara Verdi
Seis por cento do PIB. A proporção parece técnica, quase administrativa — o tipo de dado que cabe numa nota de rodapé de relatório da ONU. Mas quando se aplica à Venezuela de 2024, ela adquire uma densidade diferente. Um país que já vinha destruído antes dos terremotos, cuja economia encolheu mais de 70% na última década, cujos hospitais funcionavam sem medicamento e cujas estradas se desfaziam sem terremoto nenhum. Seis por cento do PIB de um corpo já em colapso não é o mesmo que seis por cento de qualquer outro.
A ONU estima em US$ 6,7 bilhões os danos físicos causados pelos dois terremotos que atingiram a Venezuela na última semana. Cinquenta mil pessoas seguem soterradas, segundo a própria projeção onusiana. São dois números que não deveriam aparecer na mesma frase sem que isso cause paralisia — e no entanto aparecem, lado a lado, com a serenidade burocrática dos comunicados internacionais.
O que esses números não dizem é o seguinte: a Venezuela não tinha infraestrutura de resposta antes do desastre. A capacidade do Estado venezuelano de mobilizar socorro, coordenar resgate, distribuir abrigo emergencial — tudo isso estava comprometido muito antes de qualquer abalo sísmico. Um terremoto encontra um país como encontra uma casa: se a estrutura já estava rachada, o colapso é outro.
Desastres naturais não escolhem momento, mas seus efeitos são sempre políticos. A terra treme igual; o que desmorona depois depende do que estava de pé antes.
A Venezuela de Maduro chegou a este momento depois de anos de isolamento diplomático seletivo, sanções que atingiram a população tanto quanto o regime, e uma diáspora de seis, sete milhões de pessoas — precisamente aquelas que poderiam compor uma força de reconstrução civil. O capital humano que saiu do país não volta para desentulhar escombros. Fica em Bogotá, em Lima, em Lisboa, mandando remessa para quem ficou.
A resposta internacional ao desastre vai revelar, como sempre revela, a geometria do afeto geopolítico. Quem envia ajuda, em quanto tempo, com quais condições. A ONU estima o dano; quem financia a reconstrução negocia outra coisa. Petróleo, posição, reconhecimento. A Venezuela tem reservas provadas entre as maiores do mundo, e isso nunca sumiu do cálculo de ninguém, nem antes nem depois de qualquer terremoto.
Cinquenta mil soterrados é um número que deveria parar o mundo. Não vai parar. Vai entrar nos fluxos de informação entre uma eleição europeia e um escândalo americano, vai competir com a própria enormidade do ciclo noticioso, vai ser contextualizado, relativizado, comparado. O que se perde nesse processo não é só a urgência — é a singularidade de cada vida sob cada escombro, que é precisamente o que a estatística, por definição, não pode carregar.
O número da ONU é sério e necessário. Mas ele descreve tijolo, concreto, asfalto. O que está soterrado junto — e isso a estimativa não mede — é uma possibilidade de país que já vinha sendo enterrada há muito tempo, camada por camada, antes de qualquer terremoto.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: ONU estima danos de terremotos na Venezuela em US$ 6,7 bi
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