Venezuela enfrenta crise enquanto mídia internacional reduz cobertura
Mil quatrocentas e trinta mortos em crise humanitária. O número deveria paralisar, mas cobertura internacional diminui.
Análise · Clara Verdi
Mil quatrocentas e trinta mortos. O número, por si só, deveria paralisar. Não vai. A Venezuela acumulou tantas catástrofes nos últimos anos — econômica, política, migratória — que uma nova tragédia se encaixa quase com naturalidade na narrativa já estabelecida sobre o país. É esse o perigo: quando um lugar vira sinônimo de colapso, cada novo desastre parece confirmar uma tese em vez de exigir atenção própria.
Os dois terremotos que abalaram o país na quarta-feira mataram pelo menos 1.430 pessoas. Entre as vítimas, cidadãos de vários países — detalhe que as coberturas mencionam quase de passagem, mas que diz algo importante sobre a Venezuela de hoje: um território atravessado por corpos em trânsito, migrantes, trabalhadores de múltiplas nacionalidades, gente que veio ou que tentava ir embora. A tragédia não é só venezolana. Nunca foi só venezuelana.
Há uma tradição de análise política que separa com precisão cirúrgica o desastre natural do desastre humano. Na Venezuela, essa separação é impossível. Um Estado com infraestrutura destruída por décadas de má gestão, com hospitais que já operavam na penúria, com uma população empobrecida que em grande parte mora em construções precárias — esse Estado não apenas sofre um terremoto. Ele é varrido por ele de um modo que outro Estado não seria. A geologia decide onde a terra treme. A política decide quem morre.
A catástrofe natural revela o que a política preferiu não construir.
Pasolini escreveu, nos anos 1970, que a televisão italiana havia substituído o fascismo na tarefa de homogeneizar e apagar. Algo análogo acontece com a cobertura internacional de desastres no Sul Global: não se trata de má-fé, mas de uma gramática de atenção que distribui urgência de forma desigual. Mil e quatrocentas mortes em Lisboa ou em Hamburgo seriam semanas de manchete. Na Venezuela, o noticiário já está calculando quando o assunto some.
A presença de vítimas estrangeiras abre, a contragosto, uma janela de interesse — porque conecta o evento a países que de outro modo virariam a página. É uma lógica perversa, mas real: o morto ganha rosto quando carrega um passaporte que o leitor reconhece. Aos demais, resta a estatística.
O que se pede aqui não é sentimentalismo. É precisão. Precisão sobre o que significa 1.430 mortos num país que já perdera o colchão de proteção que qualquer Estado deve oferecer a sua gente. Precisão sobre o que os estrangeiros mortos revelam da Venezuela como território de passagem e de vulnerabilidade compartilhada. Precisão, enfim, sobre o que significa olhar para esse número e seguir em frente como se ele coubesse numa nota de rodapé.
Não cabe.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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