Heitor Graça narra crônica do porteiro em dia de sol
O porteiro do prédio de Heitor Graça tem uma mania antiga: observar o sol na calçada após a chuva. Uma crônica.
Crônica · Heitor Graça
O porteiro do meu prédio tem uma mania antiga: sempre que varre a calçada, depois da chuva, ele para um instante e fica olhando o reboco de um muro baixo, do outro lado da rua. Não sei se espera uma rachadura nova ou se apenas descansa os olhos na monotonia do cinza. Hoje, quando o vi nessa sua liturgia matinal, me lembrei de uma parede que já não existe.
Foi há muitos anos, na casa de um tio. Eu era menino e ficava fascinado com a construção que subia no terreno vizinho. Todo dia um pouco mais de tijolo, um pouco mais de cimento. Um dos pedreiros, um sujeito magro de bigode ralo, assoviava uma melodia que nunca soube qual era. Eu me sentava na varanda só para ouvir o assobio e ver o prédio crescendo, como se fosse uma planta de concreto armado, regada a suor e barulho.
Aquele prédio era uma promessa. Uma promessa de gente nova, de janelas se abrindo, de cortinas coloridas balançando ao vento. Era o futuro sendo erguido com pá e colher de pedreiro. Um futuro que parecia sólido, assentado tijolo por tijolo.
Li hoje sobre o prédio que caiu na Penha, em São Paulo. Era uma obra, como a do vizinho do meu tio. Desabou sobre uma casa. Levou gente, levou uma mulher que esperava um filho. A notícia fala em vento, em chuva, mas talvez a causa seja um silêncio anterior, um cálculo malfeito, um grama de areia a menos. Não saberemos ainda, e talvez nunca saibamos de fato o que derrubou aquela parede.
O que sei é que a poeira que sobe de um desastre desses não é só de cimento. É uma poeira de futuros desfeitos. Não só o do prédio que não ficou de pé, mas o da casa que estava quieta, embaixo, vivendo seu presente. O assobio do pedreiro se cala, a janela não se abre, a cortina não balança.
Daqui da minha varanda, vejo o porteiro terminar a varrição. Uma fresta de sol bate no muro que ele tanto encara, e por um segundo o reboco cinza parece quase dourado. Dura pouco. Logo a sombra de um prédio vizinho cobre tudo de novo.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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Fontes: Agência Brasil · CNN Brasil