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Telefone mudo desafia comunicação moderna

Crônica de Heitor Graça explora o silêncio de um telefone que não toca, refletindo sobre a ausência de comunicação e a espera.

Telefone mudo desafia comunicação moderna
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Da varanda, vi o menino da bicicleta amarela dar três voltas no mesmo quarteirão. Sempre as mesmas pedaladas curtas, a cabeça inclinada para a direita, um zumbido baixo que eu ouvia daqui do terceiro andar. O porteiro do prédio vizinho, seu Amaro, cumprimentou-o nas três vezes. Na primeira, com um aceno. Na segunda, com um bom-dia sonoro. Na terceira, com o mesmo bom-dia, dito exatamente com o mesmo tom. O menino não respondeu a nenhuma delas, mas diminuiu a marcha por um segundo em frente à guarita, como se registrasse o som para uso futuro.

Pousei a xícara de café no pires e lembrei da notícia que li mais cedo, entre uma olhada no mar e outra nos cachorros da vizinhança. O governo do estado sancionou uma lei. Palavras importantes, Diário Oficial, um número para decorar e discar: Disque Autismo. Um canal para denúncias, para orientar famílias, para dar alguma voz a quem muitas vezes só se comunica com o mundo em voltas repetidas de bicicleta.

A lei existe, está no papel. Mas o telefone, por enquanto, é um silêncio. Ainda não há número, nem secretaria responsável, nem atendentes contratados para ouvir as queixas que virão. É uma promessa de escuta. Uma porta entreaberta para um corredor que ainda está sendo construído. É claro que uma lei sozinha não resolve a impaciência de uma fila de supermercado ou o olhar atravessado de quem não entende o ritmo do outro.

O menino da bicicleta amarela parou. Desceu, encostou a bicicleta na grade da pracinha e ficou olhando o movimento dos carros. Os braços balançavam, soltos ao lado do corpo. Não sei se para ele o mundo é barulhento ou quieto demais. Mas por um instante, me pareceu um almirante observando o fluxo de uma maré que só ele compreende.

O telefone um dia vai tocar. E talvez ajude a transformar a burocracia de uma lei numa coisa tão simples quanto o bom-dia repetido de um porteiro amigo, que não espera resposta.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Rio sanciona lei que cria o Disque Autismo em 27 de agosto

Fonte: Agência Brasil