Heitor Graça relata som misterioso em Copacabana
O cronista Heitor Graça narra uma madrugada incomum em Copacabana, onde um som peculiar rompeu o silêncio.
Crônica · Heitor Graça
Aqui na janela, Copacabana às vezes me oferece o miado insistente de um gato no cio, lá pelos lados do beco. É um som que já faz parte da noite, como o barulho do mar quebrando longe e a sirene eventual de uma ambulância. A gente se acostuma. A gente aprende a distinguir o gato que briga do gato que namora.
Lembrei-me disso ao ler sobre a senhora Kátia Andreia Beje, lá em Piraquara. Na madrugada do dia 24 de agosto, ela também ouviu um barulho e pensou ser um gato. Um gato machucado, disse ela. A compaixão fez com que fosse ver. Não era um gato. Era uma menina recém-nascida, dentro de uma sacola plástica, com o cordão umbilical ainda por cortar.
Imagino a senhora Kátia, naquela hora incerta entre a noite e o dia, suspendendo o gesto que seria de afago a um bicho para o espanto de acolher uma vida. Uma vida que começava ali, no lixo, com frio e duas fraturas que ninguém explica. A menina resistiu por dezoito dias. Dezoito manhãs em uma incubadora no Hospital de Clínicas, lutando contra uma infecção que acabou por vencê-la na última sexta-feira.
Não há muito o que dizer sobre a mãe, uma adolescente de dezesseis anos que alega não saber da própria gravidez até o momento do parto. O desespero tem formas que não cabem no nosso juízo de varanda. Nem sei se o que penso importa. O fato é que a menina existiu. Por dezoito dias, ela teve um nome que talvez nunca tenha recebido, teve o cuidado de enfermeiras, o calor de um aparelho.
Teve, antes de tudo, o ouvido atento de uma mulher que, esperando o lamento de um animal, encontrou o primeiro e último choro de um ser humano.
Às vezes, penso que o mundo todo depende disso. De alguém que escute um barulho estranho na madrugada e, em vez de fechar a janela, resolva descer para ver o que é.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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