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A agenda que a natureza impõe

Análise · Luciano Aragão A temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Leste subiu 3 graus Celsius acima da anomalia.

A agenda que a natureza impõe
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Análise · Luciano Aragão

A temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Leste subiu 3 graus Celsius acima da anomalia. É um número, uma medição técnica de uma agência americana. Não há adjetivo nele. Mas o número viaja 6.000 quilômetros e desembarca em Brasília como o problema mais concreto na mesa de pelo menos meia dúzia de ministérios para os próximos meses.

O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA) dos Estados Unidos traduziu o dado em probabilidade: há 75% de chance de o El Niño em curso ser o mais forte desde 1950. Para a Esplanada, isso significa duas crises simultâneas e opostas.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) já desenhou o mapa. No Norte e no Nordeste, a previsão é de seca. Rios mais baixos significam problemas de navegação, desabastecimento de comunidades isoladas, quebra na pesca. No Sul, o inverso: chuva acima da média, com risco de enchentes e danos à infraestrutura de pesca e aquicultura.

Um governo se mede pela sua capacidade de resposta a eventos que não controla. O boletim do NOAA é um teste agendado. Exigirá do Executivo uma coreografia complexa de recursos e atenção política, distribuindo verbas emergenciais para combater a seca em uma ponta do país e as inundações na outra. Governadores de estados nordestinos e sulistas farão filas nos mesmos corredores, com demandas contraditórias, mas a mesma urgência.

O que a ciência climática descreve como um sistema, a política vivencia como um cabo de guerra orçamentário. O que ainda não se sabe é a capacidade do Tesouro para absorver o duplo impacto. Uma safra afetada pela estiagem aqui e uma cidade submersa ali têm consequências diretas na inflação de alimentos e na pressão por subsídios.

O relatório americano não faz sugestões. Apenas informa que as condições para um evento climático extremo estão dadas. O Planalto recebeu o aviso. Resta saber se ele será tratado como um alerta meteorológico ou como o primeiro item da pauta.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: El Niño pode ser o mais forte desde 1950, aponta agência dos EUA

Fonte: Agência Brasil