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Investimentos em saneamento atingem R$ 44 bilhões, apesar dos desafios

O setor de saneamento básico brasileiro registrou um volume recorde de investimentos em 2023, apesar dos atrasos na universalização dos serviços e desafios regulatórios.

Investimentos em saneamento atingem R$ 44 bilhões, apesar dos desafios
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Análise · Ricardo Mendes

Um pico de R$ 44,2 bilhões em investimentos. Esta é a cifra projetada para o saneamento básico brasileiro em 2027, segundo o levantamento do Itaú BBA com a consultoria Inter.B. O número, parte de um volume de R$ 201,5 bilhões contratados e anunciados para o quinquênio 2026-2030, representa a materialização de um arranjo institucional que começou a ser desenhado em 2020, com o Marco Legal do setor. A arquitetura, enfim, ganha alicerces visíveis.

O capital internacional respondeu à sinalização. A presença do fundo soberano de Cingapura e do fundo de pensão canadense CPP em operadoras como Aegea e Iguá não é um evento fortuito, mas o resultado direto de um modelo que oferece o que esse tipo de investidor busca: contratos de concessão de prazo muito longo, que conferem resiliência a ciclos econômicos mais curtos. O instrumento principal deste financiamento, as debêntures incentivadas, saltou de um volume praticamente nulo para R$ 67 bilhões em emissões desde a aprovação do marco. É a prova de que, havendo regras claras, o mercado de capitais doméstico também funciona como motor.

A distância entre o mapa e o território

A euforia com a trajetória, no entanto, não anula a aritmética. O mesmo estudo que projeta um ritmo de R$ 40,3 bilhões anuais de investimento até 2030 aponta a necessidade de R$ 95,2 bilhões por ano para que se atinja a meta de universalização em 2033. Há uma lacuna de mais de 50% entre o capital mobilizado e o capital necessário. Os pedidos de reequilíbrio de contratos, classificados como "dores do crescimento acelerado" por um executivo do banco, são um sintoma dessa tensão. A realidade da infraestrutura enterrada sob as cidades se impõe sobre a modelagem financeira. É um lembrete de que o Brasil ainda aprende a conceder serviços complexos. O quadro pode se alterar, para melhor ou pior, conforme a jurisprudência em torno dessas revisões contratuais se consolide.

O saneamento é, em sua essência, um projeto de saúde pública e produtividade econômica disfarçado de obra de engenharia. Os R$ 1,2 trilhão estimados para a universalização completa são menos um custo e mais a cifra de um passivo histórico que o país decidiu enfrentar. O Marco Legal foi a decisão; os bilhões que agora chegam são a consequência. O capital privado cumpre seu papel, alocando recursos onde há retorno ajustado ao risco.

A questão que permanece, e que os números do estudo expõem sem rodeios, é se a velocidade atual é suficiente. Alcançar um pico de investimentos em 2027 será um marco notável, mas a meta de 2033 não é uma linha de chegada, e sim um horizonte. Estaremos celebrando o avanço da jornada ou a constatação de que o destino ficou mais longe?

Ricardo Mendes

Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Saneamento deve receber R$ 44,2 bi em 2027, diz Itaú BBA

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.