Credibilidade é princípio ativo para jornalismo
Dra. Camila Torres explora como a credibilidade se torna o pilar fundamental do jornalismo, estabelecendo confiança com o público.
Análise · Dra. Camila Torres
Um rosto conhecido, um nome que se aprendeu a confiar. Numa tela pequena, Fernanda Montenegro, 96 anos, ou Antonio Fagundes, 77, parecem endossar um remédio que promete o impossível: a cura para a doença de Alzheimer. A cena é falsa, gerada para enganar. Mas a confiança que ela explora é real, e reside aí o seu poder destrutivo.
O golpe, denunciado pelos próprios atores como um “ato criminoso”, vai além da violação de direitos de imagem. Ele se apropria de décadas de credibilidade construída na esfera pública para vender uma esperança vazia a famílias que convivem com o desamparo. A fala de Fagundes é precisa ao notar que a fraude ameaça “a vida e a integridade” das pessoas. Abandona-se um tratamento paliativo, talvez o único possível, em busca do milagre que uma atriz parece anunciar.
A promessa é tanto mais cruel por mirar uma doença que, até hoje, frustra a ciência. O Alzheimer não tem cura. Os tratamentos disponíveis se concentram em manejar sintomas ou, em alguns casos, retardar a progressão do declínio cognitivo. A própria fronteira da pesquisa é um campo de incertezas. Uma revisão sistemática publicada em maio na Cochrane Library, que analisou 17 ensaios clínicos, questionou a relevância clínica de medicamentos desenvolvidos para um dos alvos mais estudados: a redução de placas da proteína beta-amiloide no cérebro. A biologia da doença é complexa, e o caminho até uma terapia eficaz, ainda longo.
O que a publicidade fraudulenta faz é ignorar essa complexidade. Ela oferece um atalho que a medicina não tem. O uso da inteligência artificial para simular vozes e manipular imagens, como apontaram outros artistas nos comentários da denúncia, torna o golpe mais verossímil e escalável. O desafio, portanto, não é apenas legal, de punir os responsáveis, mas fundamentalmente de saúde pública.
Esta leitura, claro, se concentra na perspectiva biomédica, mas a questão talvez seja mais ampla, tocando na nossa relação com a informação. Em um ecossistema digital onde a autoridade de um nome pode ser sequestrada e posta a serviço da mentira, a distinção entre o que é endosso e o que é engano se torna turva. O princípio ativo do golpe não está no frasco do falso remédio, mas na confiança que ele corrompe.
Quando Fernanda Montenegro classifica o anúncio de "agressivo, ofensivo", ela fala de uma violência que não deixa marcas físicas imediatas. É a ofensa contra a inteligência, contra a esperança legítima e, sobretudo, contra a vulnerabilidade. Quantas conversas difíceis entre médicos e famílias são desfeitas por uma promessa assim, reluzente e falsa, que chega pelo celular?
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Fernanda Montenegro e Fagundes denunciam golpe de falso remédio
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.