Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Um calor que prometia chuva e entregou o resto

Crônica · Heitor Graça O porteiro do meu prédio, seu Armando, que costuma guardar para si as opiniões sobre o clima, desabotoou o colarinho por volta…

Um calor que prometia chuva e entregou o resto
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

O porteiro do meu prédio, seu Armando, que costuma guardar para si as opiniões sobre o clima, desabotoou o colarinho por volta das três da tarde e sentenciou: "Hoje o céu desaba". Ele olhava para o mormaço que subia do asfalto de Copacabana, um bafo quente que fazia o Pão de Açúcar tremer de longe. Dentro do elevador, a vizinha do sétimo andar, sempre de tailleur, abanava o rosto com um extrato bancário. Todos concordávamos com a profecia de Armando, esperando a redenção de uma chuva de verão em pleno julho.

O calor era de fato uma ofensa. Chegou a 35 graus, disseram no rádio. Um calor pegajoso, insistente, que prometia tempestade. E a promessa foi cumprida, mas não da forma que esperávamos. Não veio a água primeiro. Veio o vento, um vento de intenções duvidosas, que não se contentou em apenas balançar as amendoeiras da avenida. Era um vento que assobiava com pressa, que parecia ter um compromisso urgente em outro hemisfério e estava decidido a levar o que pudesse pelo caminho.

Da janela, vi as primeiras folhas voando na horizontal, como pássaros desorientados. Depois, um chapéu. Depois, a lona de um quiosque. As pessoas na rua se encolhiam, protegendo os olhos, e o mar, antes sereno, se tornou uma massa cinzenta e zangada. O vento de cem quilômetros por hora não era uma brisa, era uma afirmação. Uma força que reorganizava a paisagem sem pedir licença.

Quando a energia piscou e finalmente se foi, ficamos no escuro, ouvindo o uivo lá fora. Soube depois, pelas notícias no celular, que o vento tinha sido mais do que um susto. Que em Santa Teresa, um muro cansado da vida cedeu. Que em outros cantos, árvores se despediram de suas raízes. Que a Ponte Rio-Niterói, sempre tão altiva, precisou se render e fechar os braços por um tempo.

A luz voltou horas depois. O vento amansou, virou um sopro cansado. Seu Armando, já com o uniforme alinhado, varria a calçada, juntando um pequeno monte de folhas e galhos. "Foi só o vento", ele me disse, com a tranquilidade de quem já viu céus mais dramáticos. E eu fiquei pensando que um dia desses, que começa com um calor de rachar e termina com o mundo de ponta-cabeça, é só o vento. Mas que vento.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Ventos de 100 km/h deixam 5 mortos em São Paulo e Rio de Janeiro

Fontes: BBC News Brasil · UOL