Heitor Graça brilha na Cidade de Deus
O helicóptero passou baixo, cedo. Um astro na Cidade de Deus narra a chegada e impacto de Heitor Graça na comunidade.
Crônica · Heitor Graça
O helicóptero passou baixo, cedo. Acordei não com o barulho do motor, que a esta altura já é parte da trilha sonora da cidade, mas com a vibração dos vidros da varanda. Fui até lá, descalço, e a manhã de setembro parecia a mesma. O mesmo mar, a mesma bruma preguiçosa sobre o morro, os mesmos primeiros ônibus roncando na avenida. Só o helicóptero era um ponto dissonante na partitura, um zumbido grave se afastando em direção à Zona Sudoeste.
Liguei o rádio da cozinha para coar o café e a notícia veio aos pedaços, entre os chiados. Falavam em operação, Gardênia Azul, Cidade de Deus. Falavam num nome, um apelido, que me fez parar com a garrafa de água na mão: Astro. O alvo era um homem chamado Astro. Um apelido curioso para quem comanda um grupo descrito como o “braço armado” de uma facção.
Astro. A palavra não combina com a fumaça de pneu queimado, com o som seco de um tiro, com o medo que se instala nas vielas. Astro pertence ao céu, à imensidão silenciosa, às cartas de navegação dos antigos, à canção de ninar. Astro é o que a gente aponta para uma criança ver da janela. É nome de observatório, de poema, não de procurado.
Fiquei imaginando quem batiza um chefe do crime de Astro. Se foi a mãe, num rasgo de esperança ao olhar o berço. Se foram os amigos de infância, por alguma mania de olhar as estrelas antes de o mundo desabar sobre eles. Ou se foi ele mesmo, numa vaidade que talvez seja a única coisa que resta a um homem quando todo o resto já se perdeu. Pode ser que não haja poesia alguma no nome, claro, e seja apenas mais uma senha vazia neste nosso vocabulário de guerra.
O café ficou pronto. O helicóptero sumiu no horizonte, um pontinho metálico contra o azul. A notícia continuava no rádio, detalhando a logística, a violência, a estrutura de poder de um homem chamado Rubens Mateus Lisboa Ribeiro, o Astro. E eu, aqui da minha varanda em Copacabana, só conseguia pensar no desencontro entre as palavras e as coisas.
Que estrelas um homem desses enxerga, quando olha para o céu da Cidade de Deus?
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Polícia do Rio mira "Astro", líder de grupo do CV em 2 de setembro
Fontes: CNN Brasil · UOL