Trump, o Irã e a gramática da destruição civil
Análise · Clara Verdi Há uma lógica que convém nomear antes do dado: a de que infraestrutura civil pode ser usada como moeda de barganha numa guerra…
Análise · Clara Verdi
Há uma lógica que convém nomear antes do dado: a de que infraestrutura civil pode ser usada como moeda de barganha numa guerra declarada em entrevista à Fox News. Donald Trump anunciou nesta terça-feira que atacará usinas de energia e pontes iranianas "na próxima semana" caso Teerã não volte à mesa de negociação. A frase não é um deslize retórico. É uma ameaça com destinatário, prazo e lista de alvos.
O problema começa exatamente aqui. As Convenções de Genebra — não um texto abstrato, mas o conjunto de normas construído sobre os escombros da Segunda Guerra — proíbem ataques deliberados contra infraestrutura civil. Especialistas já disseram isso em abril, quando Trump fez ameaças idênticas antes de um cessar-fogo que durou o tempo suficiente para ser esquecido. O cessar-fogo veio. As declarações ficaram sem consequência jurídica. Agora elas voltam, levemente reaquecidas, com um cronograma.
O que muda entre abril e hoje não é a natureza da ameaça, mas a saturação que ela já produziu. Quando uma violação em potencial do direito internacional humanitário é anunciada duas vezes pelo mesmo presidente sem que nenhum mecanismo institucional se mova de forma consequente, o que se erosiona não é apenas uma norma específica — é a ideia de que normas têm peso contra o poder suficientemente grande. A repetição não é imprudência. É doutrina.
"Vamos destruir todas as usinas de energia. Vamos destruir todas as pontes, a menos que eles venham para a mesa e negociem."
A frase é medieval na sua estrutura — rendam-se ou queimamos a cidade —, mas moderna no canal de distribuição: uma emissora de televisão servindo de balcão diplomático. Trump afirmou que os EUA mantiveram conversas com autoridades iranianas nesta mesma terça-feira. Ou seja: a ameaça pública e a negociação discreta ocorrem em paralelo, o que seria apenas estratégia de pressão se os alvos listados não fossem populações civis dependentes de eletricidade e deslocamento.
Destruir usinas de energia no Irã não enfraquece exclusivamente a capacidade militar iraniana. Enfraquece hospitais, sistemas de água, aquecimento no inverno, tudo aquilo que separa a sobrevivência cotidiana do colapso. Essa não é uma consequência colateral especulativa; é o funcionamento básico de uma grade elétrica nacional. Quando se anuncia esse alvo como instrumento de negociação, está-se anunciando que a população civil é o instrumento de pressão.
A Europa observa isso com o desconforto de quem reconhece o argumento mas não tem mais autoridade suficiente para contestá-lo em voz alta. A UE emite declarações; os Estados Unidos operam. Essa assimetria, que em outros momentos foi administrada pela crença compartilhada em certas regras do jogo, tornou-se mais difícil de sustentar quando as regras são citadas como obstáculo pelo próprio ator que as formulou após 1945.
O que fica desta terça-feira não é uma crise diplomática com prazo de validade. É um precedente em construção lenta: de que infraestrutura civil pode ser ameaçada publicamente, por um presidente em exercício, com prazo marcado, e que isso produz cobertura de imprensa antes de produzir responsabilização.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Trump ameaça atacar usinas e pontes do Irã na próxima semana