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Trump em Ancara: o espetáculo como doutrina militar

Análise · Clara Verdi Há uma tradição, na retórica de guerra americana, de separar o que o presidente diz do que o Estado faz.

Trump em Ancara: o espetáculo como doutrina militar
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Análise · Clara Verdi

Há uma tradição, na retórica de guerra americana, de separar o que o presidente diz do que o Estado faz. Com Trump, essa separação deixou de ser analítica e virou operacional — o próprio presidente embaralha as duas coisas, deliberadamente, como método. O que aconteceu em Ancara nesta quarta-feira não foi uma gafe diplomática numa cúpula da Otan. Foi a exibição mais clara até agora de como Trump usa a ambiguidade declaratória como substituto de estratégia.

Num mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos anunciou um "grande ataque" para aquela noite, ameaçou cortar o fornecimento de energia elétrica e água potável do Irã, sugeriu que talvez tomasse a Ilha de Kharg — que concentra, segundo ele mesmo revelou, cerca de 90% das exportações iranianas de petróleo —, chamou a ofensiva em curso de "tremendo sucesso militar" e, horas depois, disse acreditar que o conflito "vai passar muito rápido". Tudo isso no mesmo dia. Tudo isso para jornalistas, na margem de uma cúpula da aliança atlântica.

A declaração de que é "número 1 na lista de alvos do Irã" merece atenção particular, não pela fanfarronice de superfície, mas pelo que revela sobre a lógica em que opera. Trump transformou sua própria vulnerabilidade física em argumento de autoridade — estou na mira, portanto estou no centro, portanto minha decisão de atacar é pessoal e inevitável. É uma forma de fusão entre o ego presidencial e a soberania do Estado que teria dado a Pasolini material para um ensaio inteiro.

O contexto factual é grave o suficiente para merecer sobriedade analítica: forças americanas atacaram o Irã na noite de terça, após ataques iranianos a navios comerciais no Estreito de Ormuz. O Irã retalhou com ataques a bases americanas no Bahrein e no Kuwait — dois países que abrigam infraestrutura militar central de Washington no Golfo. O Estreito de Ormuz, por onde passa parcela decisiva do petróleo mundial, está sob risco de bloqueio. Os aliados da Otan, segundo Trump, concordaram em enviar embarcações caça-minas para a região. Isso é uma escalada de proporções que a linguagem de "vai acabar rápido" simplesmente não alcança.

O que a Turquia — escolha ela mesma carregada de ironia, dado o histórico de Ancara com a Otan — viu nesta quarta foi um presidente americano conduzindo a política de segurança do Ocidente como se fosse uma conferência de imprensa permanente, em que cada resposta é ao mesmo tempo ameaça, recuo, provocação e reasseguramento. Os aliados europeus presentes na cúpula sabem, e a maioria prefere não dizer em voz alta, que essa imprevisibilidade não é apenas estilo: é o ambiente em que terão de tomar decisões sobre bases, rotas marítimas e preços de energia nas próximas semanas.

A frase sobre o TikTok — "prefiro ser número um no TikTok, mas sou número um na lista para ser morto" — resume com precisão involuntária a equação trumpiana: a política externa como performance para uma audiência doméstica, mesmo quando o palco é a beira de uma guerra.

O que fica de Ancara não é clareza sobre as intenções americanas em relação ao Irã. Fica a confirmação de que a ausência de clareza é, ela mesma, a intenção.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump diz ser alvo número 1 do Irã durante cúpula da Otan na Turquia

Fontes: g1 · UOL