Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Trump propõe distribuir US$ 5 mil a cada adulto americano

Donald Trump sugere distribuir US$ 5 mil para cada adulto nos EUA, gerando discussão sobre a viabilidade econômica da proposta.

Trump propõe distribuir US$ 5 mil a cada adulto americano
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Quinhentos mil dólares a cada adulto americano. O número, lançado por Donald Trump em uma convenção que um correligionário apelidou de “Trumpapalooza”, soa como o delírio de um imperador tardio. A promessa, batizada de “dividendo Trump”, é condicional: o dinheiro só virá se os republicanos mantiverem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de novembro. Não há plano de financiamento, apenas a afirmação de que o país “está ganhando muito dinheiro”. É fácil descartar a manobra como a bravata de um presidente com aprovação abaixo dos 35%. Mas o gesto, em sua crueza, expõe a mecânica do poder quando a legitimidade se esvai.

O apelo não é a um programa de governo, a uma ideia de nação ou a um projeto de futuro. É uma transação. Um voto em troca de dinheiro. A lógica não é nova — remete ao panem et circenses que os Césares ofereciam à plebe de Roma —, mas sua aplicação em uma democracia que se pretende exemplar tem a força de um diagnóstico. Trump, acuado por projeções que entregam o Congresso aos democratas, parece ter abandonado a própria pretensão de governar por consentimento. Ele não pede mais para ser seguido, mas para ser comprado. Pede aos eleitores que finjam que seu nome está na cédula. Um líder que precisa implorar para ser lembrado.

Voto, logo existo

O que se vê em Dallas não é uma convenção partidária tradicional, mas um espetáculo centrado em um só homem, cuja sorte política se desvinculou da do seu partido. Trump não fala do custo de vida, principal preocupação do eleitor segundo as pesquisas. Fala de si. Da guerra no Irã, do estreito de Hormuz que ele renomearia com seu nome, do próprio dividendo. A retórica é a do apocalipse: se os democratas vencerem, o país “descerá ao inferno”. Se vencerem os republicanos, eles deixarão “o mundo para trás por gerações”. Não há meio-termo, apenas a salvação ou a danação. Uma teologia política para tempos de desespero.

O quadro, no entanto, pode se provar mais complexo do que a simples rejeição a uma promessa vazia. A oferta de dinheiro vivo, por mais implausível, toca em uma verdade incômoda sobre o eleitorado que o levou à Casa Branca: um profundo ceticismo em relação às instituições e uma preferência pelo homem forte que promete resolver tudo com um gesto, um decreto, um cheque. Trump fala diretamente a essa desilusão, oferecendo não uma solução para os problemas do país, mas um alívio momentâneo para o bolso do indivíduo.

O destino dos republicanos, de fato, está atado ao de Trump. A questão que as urnas de novembro responderão não é se a promessa de cinco mil dólares é viável, mas se a fantasia de um salvador que distribui dinheiro ainda é suficiente para evitar o inferno que ele mesmo anuncia. Que tipo de país emerge quando a política se resume a um festival de música com o nome de um só homem?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump promete US$ 5 mil a adultos se republicanos vencerem

Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo