Oceano Pacífico registra aumento de 1,8°C na temperatura
Cientistas confirmam aumento incomum de 1,8°C na temperatura do Oceano Pacífico, levantando preocupações sobre impactos climáticos.
Análise · Prof. Otávio Estrela
O oceano Pacífico está com febre. Não é uma metáfora poética, mas a leitura fria dos termômetros. Em uma de suas faixas equatoriais mais importantes, a região Niño 3.4, a temperatura da superfície da água se mantém, há cerca de um mês, 1,8 grau Celsius acima da média histórica. Parece pouco. Mas na escala planetária, um grau e oito décimos é uma anomalia imensa, uma assinatura inequívoca do fenômeno que batizamos, séculos atrás, de El Niño — o menino.
Desta vez, o menino parece vir com uma força que poucos vivos testemunharam. A agência climática dos Estados Unidos, a NOAA, calcula em 75% a chance de que este evento, no último trimestre do ano, se torne o mais intenso já registrado desde que as medições sistemáticas começaram, em 1950. A probabilidade subiu. No mês anterior, era de 69%. A ciência é este processo: uma calibração contínua do nosso entendimento, uma aproximação cada vez mais fina da realidade que se desenrola. As projeções não são revelações divinas, são o nosso melhor modelo do que pode vir.
E o que pode vir? A física é direta. Um oceano mais quente significa mais vapor de água na atmosfera. Mais energia disponível para alimentar tempestades, alterar padrões de vento e deslocar zonas de chuva e seca pelo globo. É o que já se vê, como peças de um dominó planetário que começam a cair: secas extremas na Indonésia, chuvas torrenciais no sul do Brasil, um trio raro de furacões no mesmo Pacífico que gera o calor. Até o Canal do Panamá, artéria vital do comércio mundial, sente o pulso do fenômeno, reduzindo o tráfego de navios por falta da água da chuva que o alimenta.
A própria agência que emite o alerta nos lembra de um ponto fundamental: probabilidades altas não são certezas, e um El Niño forte não garante que seus impactos serão mecanicamente mais graves em todos os lugares. O clima é um sistema complexo, com incontáveis variáveis. Essa humildade diante do que ainda não conseguimos prever com exatidão é parte essencial do método científico.
Mas a tendência é clara. Os dados indicam um aquecimento que pode superar os 2,5°C na região do Pacífico. Estamos diante de um sistema que acumula uma quantidade colossal de energia e que vai, inevitavelmente, liberá-la. A Terra é um corpo só. Uma febre em seu maior oceano não é um evento isolado, é um sintoma que reverbera por todo o organismo. Cabe a nós, habitantes de uma pequena crosta rochosa girando pelo espaço, aprender a escutar esses sinais. O que faremos quando o planeta inteiro nos diz que sua temperatura está subindo?
Prof. Otávio Estrela — Ciência — chefia. Xaplin.
Leia o factual: El Niño tem 75% de chance de ser o mais forte desde 1950, diz EUA
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo