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Shakira em Copacabana promete movimentar R$ 800 milhões e reescrever

Show gratuito de Shakira em Copacabana, marcado para sábado 2 de maio, promete movimentar R$ 800 milhões. André Cavalcanti pergunta como o Rio reescreve sua agenda cultural.

Shakira em Copacabana promete movimentar R$ 800 milhões e reescrever
Bica. — Cultura & Arte

O Fato

O show gratuito de Shakira marcado para sábado, 2 de maio, em Copacabana, deverá gerar um impacto econômico de até R$ 800 milhões para a cidade do Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela G1 em 27 de abril de 2026, com base em estudo realizado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico em parceria com a Riotur (empresa municipal de turismo). O levantamento técnico, ao qual a GloboNews também teve acesso, posiciona este como o maior retorno financeiro já registrado na série "Todo Mundo no Rio", iniciada em 2024.

Para contextualizar a magnitude do evento: os shows anteriores de Madonna e Lady Gaga, ambos na mesma série de apresentações gratuitas na orla carioca, geraram impactos econômicos menores que este projetado para Shakira. Trata-se, portanto, de um recorde não apenas para a iniciativa municipal, mas potencialmente para toda a história recente de eventos culturais de grande escala no Rio de Janeiro.

A estimativa de R$ 800 milhões inclui múltiplas variáveis econômicas: movimento de turistas nacionais e internacionais, gastos em hospedagem, alimentação, transporte, comércio local e serviços conexos. Segundo dados preliminares da pesquisa, espera-se afluência massiva de público, com estimativas apontando para centenas de milhares de espectadores concentrados na Praia de Copacabana. O evento ocorre num momento em que o Rio busca retomar sua posição como destino turístico prioritário no Brasil e na América Latina, após anos de desafios econômicos e de segurança pública que impactaram o setor de turismo.

A escolha de Copacabana — um dos cartões-postais mais icônicos do país — reforça a estratégia da prefeitura em utilizar eventos culturais de alcance global como ferramenta de revitalização econômica urbana. O show gratuito, financiado pelo poder público em parceria com patrocinadores privados, representa investimento direto em cultura e turismo, com retorno multiplicador esperado em diversos setores da economia local. A data (2 de maio) foi estrategicamente escolhida para maximizar o fluxo turístico no fim de semana, quando o movimento tende a ser mais intenso.

A Análise de André Cavalcanti

Números impressionam, é verdade. Oitocentos milhões de reais é cifra que qualquer gestor cultural exibe com orgulho nas coletivas de imprensa. Mas preciso ser honesto comigo mesmo e com você, leitor: estou dividido entre a euforia econômica e a incerteza sobre o que realmente estamos medindo aqui.

Por um lado, é absolutamente legítimo comemorar. A Shakira é ícone global, sua vinda ao Rio em apresentação gratuita é conquista real da gestão pública carioca. Se de fato gerar oitocentos milhões em movimento econômico, isso significa hotéis lotados, restaurantes cheios, táxis rodando, comércio aquecido. Significa emprego temporário, renda para famílias, ar de normalidade e prosperidade numa cidade que tanto precisava disso. Do ponto de vista pragmático, estamos falando de economia real circulando.

Porém — e aqui está meu incômodo — devemos questionar o que a métrica realmente significa. Esses oitocentos milhões representam criação de riqueza genuína ou apenas redistribuição de gastos que já aconteceriam? Um turista que vinha passar o fim de semana no Rio de qualquer forma, mas que agora gastos extras em ingressos de transporte para chegar a Copacabana, isso entra na conta. Um carioca que sai de sua zona habitual para o evento e deixa de gastar onde iria gastar — tecnicamente moveimenta a economia, mas não a aumenta.

Minha preocupação maior é esta:

"Celebramos Shakira como solução econômica quando deveríamos questioná-la como sintoma de uma cidade que só respira quando há espetáculo internacional agendado."

O Rio não pode viver de shows. Precisa de economia estruturada, setores produtivos robustos, inovação, indústria criativa permanente — não apenas eventos pontuais. É maravilhoso ter Shakira sábado. Mas e segunda-feira? E os próximos meses? O Rio possui recursos, inteligência coletiva, localização geográfica incomparável. Por que reduzimos nossa esperança econômica a calendários de celebridades?

Dito isto, não sou ingênuo. Eventos assim têm valor simbólico imenso. Copacabana lotada, população carioca se sentindo parte de algo memorável, a cidade na mídia global sob perspectiva positiva — tudo isso importa psicologicamente e tem repercussão real. Mas que seja ponto de partida, não de chegada.

Shakira merece vir. Rio merece tê-la. Só peço que, enquanto celebramos sábado, continuemos trabalhando para um Rio que prospere também nas quartas-feiras.

Que esse recorde econômico nos inspire não apenas a trazer mais espetáculos, mas a construir uma cidade onde a prosperidade não dependa de agendas internacionais para existir.

André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica..