A política externa no pátio do hospital
Análise · Beatriz Fonseca O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez de uma agenda sobre saúde, nesta terça-feira, 28 de maio, no Rio de Janeiro,…
Análise · Beatriz Fonseca
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez de uma agenda sobre saúde, nesta terça-feira, 28 de maio, no Rio de Janeiro, um ato de política externa. Ao lado do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em um pátio do Hospital Federal do Andaraí, o presidente transformou a defesa de uma política pública nacional, o Sistema Único de Saúde, em uma mensagem direcionada ao ex-presidente norte-americano Donald Trump.
O gesto foi mais do que retórico. Ao pedir que Tedros levasse a Trump o recado de que “tratamento de saúde não é para rico, é para quem está doente”, Lula utilizou a presença de uma autoridade global para construir um contraste entre dois modelos de Estado. De um lado, o brasileiro, que, segundo o presidente, garante ao cidadão comum acesso à mesma tecnologia de radioterapia disponível a líderes como Vladimir Putin ou Xi Jinping. De outro, o norte-americano, lembrado pelo corte de verbas para a OMS durante a gestão de Trump.
A escolha do mensageiro e do cenário foi calculada. Tedros, que segundo Lula foi ele mesmo atendido pelo SUS durante uma visita ao Brasil para o G20, personificava a validação internacional do sistema. O hospital público, por sua vez, servia de palco para a afirmação de que o compromisso com a saúde deve ser do Estado, e não do mercado. A visita converteu-se, assim, em uma plataforma para exportar o SUS não apenas como um programa, mas como um princípio de governança e um ativo diplomático.
Na minha avaliação, o movimento revela uma estratégia de posicionar o Brasil como um contraponto a certas correntes políticas globais, usando suas políticas sociais como principal argumento. A fala não se destinava apenas ao público interno ou a Donald Trump, mas a uma audiência internacional que debate os limites do papel estatal no bem-estar social. A defesa do SUS, portanto, transcendeu a gestão da saúde para se tornar um instrumento de projeção de poder brando.
O que se viu no pátio do hospital, entre equipamentos do SAMU e discursos de ocasião, foi uma tentativa de transformar uma política pública em uma declaração sobre o lugar do Brasil no mundo.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Lula pede a diretor da OMS que envie recado a Trump sobre o SUS
Fontes: g1 · CNN Brasil · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.