Ormuz não é um estreito. É uma decisão
Análise · Clara Verdi Há uma gramática nos bombardeios americanos que convém ler com cuidado antes de ler os comunicados.
Análise · Clara Verdi
Há uma gramática nos bombardeios americanos que convém ler com cuidado antes de ler os comunicados. Quando o Pentágono anuncia que os alvos são "capacidades militares utilizadas para ameaçar embarcações" — e não instalações nucleares, não lideranças do regime, não infraestrutura civil —, está escolhendo uma linguagem de precisão cirúrgica que serve tanto à operação quanto à diplomacia. O ataque a Bandar Abbas, a principal cidade portuária do sul do Irã, não é um gesto de guerra total. É um recado endereçado a mais de uma audiência ao mesmo tempo.
O Estreito de Ormuz tem 33 quilômetros em seu ponto mais estreito. Por ali passa, dependendo da semana, entre um quinto e um quarto de todo o petróleo comercializado no mundo. Não existe, no planeta, um gargalo geoeconômico comparável em termos de consequências imediatas. Fechar Ormuz — ou apenas ameaçar fechar — é um instrumento que o Irã maneja há décadas como última cartada de dissuasão. Que os EUA tenham escolhido atacar precisamente as bases que sustentam essa ameaça, e não outro alvo, diz onde está o nervo exposto.
O que torna a quarta-feira de 15 de maio particularmente densa é a simultaneidade entre os ataques e a declaração de Trump de que o Irã "quer muito" chegar a um acordo. A frase, dita enquanto as explosões ainda ecoavam em Bandar Abbas, não é contradição — é técnica de negociação exibida em público. Trump sempre operou assim: a bomba como argumento de abertura, a oferta como segundo parágrafo. O problema é que essa lógica pressupõe um interlocutor capaz de separar o gesto militar da humilhação política, e a República Islâmica tem uma história longa e documentada de preferir o colapso à capitulação visível.
Da perspectiva europeia — que é, afinal, a perspectiva que me cabe — o que se observa é uma aceleração que Bruxelas não controla e mal consegue nomear. A Europa depende de Ormuz tanto quanto qualquer outro bloco importador de energia. Depende, também, de alguma estabilidade residual no arco persa para sustentar os acordos comerciais que foram sendo tecidos, com paciência e pouco alarde, desde o JCPOA de 2015. Cada onda de ataques americanos estreita o espaço em que a diplomacia europeia poderia, teoricamente, operar.
Bombardear as bases que guardam o Estreito não é o mesmo que resolver a questão do Estreito. É, antes, torná-la mais cara para todos — inclusive para quem bombardeia.
A Europa observa. Não tem instrumentos militares para intervir, não tem coesão política para se posicionar com clareza, e não tem, neste momento, liderança capaz de oferecer uma alternativa à lógica binária que Washington projeta. O que tem são mercados nervosos, rotas marítimas em suspenso e a consciência incômoda de que as decisões que mais a afetam continuam sendo tomadas em outro lugar — como, de resto, sempre foram.
Clara Verdi — Correspondente Europa, Xaplin
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: EUA bombardeiam bases iranianas no Estreito de Ormuz