O Ormuz que Trump quer e o Irã que não cede
Análise · Clara Verdi Há uma lógica imperial muito antiga no que está acontecendo no Golfo Pérsico: quem controla o estreito controla o petróleo…
Análise · Clara Verdi
Há uma lógica imperial muito antiga no que está acontecendo no Golfo Pérsico: quem controla o estreito controla o petróleo; quem controla o petróleo controla o que resta da ordem do pós-guerra. O Estreito de Ormuz não é apenas uma passagem de água — é a jugular por onde circula aproximadamente um quinto do petróleo mundial, e a decisão de Washington de impor um bloqueio naval ao Irã, seguida de uma nova onda de ataques na quarta-feira, precisa ser lida como o que é: uma escalada deliberada, calculada, que não começou terça-feira e não termina no comunicado do CENTCOM publicado no X.
O que o Comando Central norte-americano descreveu como ataques a "capacidades militares iranianas utilizadas para ameaçar embarcações que transitam livremente pelo Estreito de Ormuz" é, no plano retórico, perfeito: coloca os EUA como garantes da navegação internacional, e Teerã como força disruptiva. O que o comunicado não diz é que o próprio bloqueio naval americano — em vigor desde a tarde de terça, com dois navios comerciais já redirecionados pelo Exército dos EUA — é, por definição, uma interdição à livre circulação. A gramática da justificativa é circulatória: bloqueio para garantir que não haja bloqueio.
A ilha de Grande Tunb, alvo de 90 minutos de bombardeios entre a madrugada e a manhã de quarta, não é um detalhe operacional. Faz parte do que já foi descrito como o "arco de defesa" iraniano no Golfo — um conjunto de posições insulares que Teerã construiu ao longo de décadas precisamente para ter o que hoje está perdendo: capacidade de dissuasão sobre o estreito. Destruir defesas costeiras e depósitos de mísseis em Grande Tunb é dizer ao Irã que sua margem estratégica está encolhendo.
A resposta iraniana veio na mesma frequência: ameaça de fechar o Estreito de Bab El-Mandeb, que conecta o Golfo de Aden ao Mar Vermelho e, por extensão, ao Mediterrâneo. É uma ameaça que precisa ser levada a sério não por sua viabilidade imediata, mas pelo que revela — Teerã sinalizando que o conflito pode migrar de geografia, que a crise no Ormuz pode tornar-se crise no Mar Vermelho, onde os huthis já demonstraram, nos últimos anos, o quanto o Iêmen pode servir de extensão da projeção iraniana.
E então Trump diz, durante entrevista à Fox Business, que o Irã quer se reunir com os EUA, que quer muito chegar a um acordo. É uma declaração que merece ser ouvida com as duas orelhas: a de quem negocia e a de quem pressiona. A diplomacia de máxima pressão que Washington pratica — bombardeia de manhã, abre a janela para negociação à tarde — tem uma história longa e pouco gloriosa no Oriente Médio. O porta-voz iraniano respondeu que o país não tem planos para negociações e responderá aos ataques.
O que se passa no Golfo Pérsico nesta quarta-feira não é apenas uma batalha por uma rota marítima. É um teste sobre quem determina as regras do que ainda chamamos de ordem internacional — e a resposta, a julgar pelos comunicados no X e pelas chamas em Grande Tunb, está sendo escrita em munições de precisão.
Clara Verdi é correspondente da Xaplin em Bruxelas
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: g1 · CNN Brasil