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Oito dias sob os escombros de La Guaira

Análise · Clara Verdi Há uma cena que não precisa de legenda: centenas de pessoas diante de um prédio destruído, em La Guaira, esperando.

Oito dias sob os escombros de La Guaira

Análise · Clara Verdi

Há uma cena que não precisa de legenda: centenas de pessoas diante de um prédio destruído, em La Guaira, esperando. A aglomeração não é desordem — é linguagem. É o modo como uma comunidade diz que alguém ainda está vivo lá dentro, e que não vai embora enquanto isso for verdade. O vigilante resgatado após oito dias sob os escombros dos terremotos na Venezuela é, primeiro, esse fato bruto e irredutível: um homem vivo onde não deveria haver vida.

Oito dias. O número merece pausa. A janela crítica de sobrevivência em desabamentos — aquela que os sistemas de resgate usam para alocar recursos e tomar decisões logísticas — costuma ser fixada entre 72 e 96 horas. Depois disso, a estatística começa a falar mais alto que a esperança. O resgate em La Guaira não contraria a estatística por acaso ou por milagre técnico; ele a contraria porque houve gente que ficou. Que não aceitou o fechamento do prazo.

La Guaira não é qualquer lugar no imaginário venezuelano. É o litoral que recebe — ou recebia — quem chegava de avião ao país, porta de entrada e de saída de uma nação que nas últimas duas décadas viu partir uma fração considerável de sua população. A cidade carrega, portanto, uma carga simbólica específica: é lugar de trânsito, de fronteira entre o país e o mundo. Que seja exatamente ali, nessa cidade de bordas, que um homem emerja dos escombros depois de uma semana é o tipo de detalhe que Pasolini teria anotado num caderno antes de transformar em imagem.

A Venezuela de Maduro chega a esse momento sísmica e politicamente fragilizada. O Estado que precisaria liderar operações de resgate de grande porte é o mesmo Estado que enfrenta colapso de infraestrutura crônico, isolamento internacional e uma diáspora que levou consigo parte da mão de obra técnica do país. Não há como separar o terremoto da situação estrutural em que ele ocorreu — os escombros são também o resultado de décadas de desinvestimento em engenharia, fiscalização e preparação para desastres.

O que o resgate de um vigilante revela não é a eficiência do sistema. Revela a sua ausência — e o que ocupa o lugar dela: a teimosia coletiva de quem não tem outra ferramenta.

Há uma tentação jornalística, compreensível e enganosa, de transformar esse tipo de sobrevivência em narrativa de redenção. O homem vivo vira símbolo de esperança, a multidão vira civismo, e o Estado ausente some do quadro. Resistir a essa tentação é o mínimo que se deve ao fato. O vigilante sobreviveu apesar de tudo — apesar da estrutura que desabou, apesar do sistema que falhou, apesar do tempo que passou. A pergunta que fica, e que La Guaira ainda não pode responder, é quantos não sobreviveram pela mesma razão.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Vigilante é resgatado com vida após 8 dias dos terremotos na Venezuela

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL