O vizinho, o espelho e a nossa ausência na final
Análise · Marcos Tibúrcio O domingo da final da Copa do Mundo amanheceu no Brasil com uma pergunta que é quase uma ofensa: para quem torcer?
Análise · Marcos Tibúrcio
O domingo da final da Copa do Mundo amanheceu no Brasil com uma pergunta que é quase uma ofensa: para quem torcer? De um lado, a Argentina. Do outro, a Espanha. Para a arquibancada brasileira, órfã de sua própria seleção desde uma eliminação que ainda remoemos, a escolha se dá menos pelo coração e mais pelo fígado.
É uma decisão entre o vizinho que conhecemos bem demais — com suas glórias que nos irritam e seus dramas que, confessamos, nos divertem — e um primo distante, de futebol vistoso, mas cuja vitória não nos diz muito. A camisa albiceleste em uma final de Mundial é um insulto à nossa memória. É o tango no Maracanã, a provocação na fronteira, a rivalidade que alimenta a nossa paixão e o nosso desprezo. Torcer contra a Argentina é, para muitos, uma extensão natural de ser brasileiro.
Mas o futebol, esse diabo, nos prega peças. E a peça da vez atende pelo nome de Lionel Messi. O homem que, em fim de carreira, busca um segundo título para que não reste mais argumento. Há um fascínio quase universal por ele, uma admiração que fura a bolha da rivalidade. Ver Messi é ver a história. E há brasileiros, muitos, que se rendem ao gênio, dispostos a engolir o orgulho em nome da beleza. Preferem aplaudir o artista a vaiar o vizinho.
Do outro lado, a Espanha oferece um futebol que já foi nosso. Um jogo de toque, de inteligência, encarnado agora na juventude de um garoto como Lamine Yamal. É um futebol técnico, quase asséptico, que convida à apreciação. É a torcida pelo "bom jogo", uma escolha racional, de quem se senta no sofá para admirar a arte, não para sofrer com a guerra. É uma escolha que, no fundo, revela o tamanho da nossa ausência: quando não estamos lá, nos resta torcer pelo espetáculo.
Neste domingo, o Brasil se sentará para assistir a uma festa que não é sua. Dividido entre odiar o conhecido ou ser indiferente ao estranho. Entre a devoção a um craque que não veste verde e amarelo e a esperança de ver a agonia do rival. Seja qual for a escolha, ela será feita com um gosto amargo. O gosto de quem olha pela janela a celebração na casa ao lado, sabendo que, por direito e por história, deveria estar lá.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge