Ancelotti desiste da seleção brasileira, e Diniz assume de vez
Carlo Ancelotti não será mais o técnico da Seleção Brasileira. Fernando Diniz assume a função de forma permanente. Entenda o cenário.
Análise · Marcos Tibúrcio
A primeira lei do futebol brasileiro não está escrita em manual da CBF, nem é ensinada em curso de treinador. É uma lei de arquibancada, passada no boca a boca, entre um amendoim e um grito de gol. Diz que a camisa da Seleção tem peso próprio. Uma gravidade que enverga os ombros do craque e esmaga o burocrata. Foi essa a lei que Thiago Silva, zagueiro de quatro Copas do Mundo, invocou na noite de ontem.
Carlo Ancelotti, o italiano de sobrancelha professoral e armário abarrotado de taças, acenou com uma vassoura. Depois da eliminação para a Noruega, falou no fim do ciclo de uma geração, em passar a régua nos nomes com mais de 30 anos — Neymar, Danilo, Casemiro. Um decreto de cartório, lógico e frio como uma planilha de scout europeu. Thiago Silva, do alto de seus 113 jogos com a amarelinha, respondeu do Maracanã, seu terreiro de origem e retorno. E a resposta não foi um lamento. Foi um aviso.
“Em Seleção Brasileira as coisas tem que ser devagar”, disse o zagueiro. “Aqui não funciona assim”. Na boca de outro, soaria a choro de quem perdeu o lugar. Na de Thiago Silva, soa a diagnóstico. Ancelotti, o homem que o levou para a Europa há quase duas décadas, parece não ter aprendido a lição fundamental da terra que agora comanda: o Brasil não lida com o tempo como o Real Madrid. Aqui, a renovação não é um projeto de recursos humanos. É uma passagem de bastão, um ritual quase sagrado, que exige tato, respeito e, sobretudo, resultado imediato.
A fala de Ancelotti é a de um gestor. A de Thiago, a de um sobrevivente. O técnico vê um calendário, idades, a necessidade de oxigenar um elenco que falhou. O zagueiro vê homens, histórias, a cicatriz que cada eliminação deixa na alma. Vê a diferença entre o ambiente asséptico de um clube europeu, onde o próximo cheque consola a derrota, e a pressão vulcânica da única camisa que importa para 200 milhões de técnicos. Pode ser que Ancelotti esteja certo em sua frieza cirúrgica, e que o futebol brasileiro precise exatamente desse choque de gestão. Mas a história sugere que toda vez que um estrangeiro tentou impor a lógica de fora à ilógica paixão daqui, o resultado foi ruído.
O italiano anuncia sua primeira lista nesta quarta-feira. Ali, o conceito de “reformulação” ganhará nomes e sobrenomes. Deixará de ser uma ideia para se tornar um fato. E no futebol, como na vida, um fato pode ser o início de uma nova era. Ou apenas o primeiro capítulo de um velho drama.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Thiago Silva critica reformulação de Ancelotti na Seleção
Fonte: ge