Último zagueiro dos deuses se despede no dia da Copa
Análise de Marcos Tibúrcio sobre coincidências cruéis do futebol e despedidas marcadas pelo acaso.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há coincidências que o futebol fabrica com crueldade e precisão. Brito morreu na quinta-feira, dia 11 de junho de 2026 — exatamente quando a Copa do Mundo voltava a ser jogada no continente americano pela primeira vez desde aquele verão mexicano de 1970. Cinquenta e seis anos separam as duas datas. No calendário, uma linha reta. No futebol, um abismo.
Brito era zagueiro titular daquela seleção. Não o mais celebrado, não o nome que os poemas escolheram primeiro. Pelé tinha o gênio, Tostão tinha a delicadeza, Rivelino tinha o bigode e o chute. Mas a seleção de 1970 não foi apenas ataque. Foi também a solidez de uma zaga que permitiu ao brilho da frente existir sem ansiedade. Brito era parte dessa estrutura invisível — o tipo de jogador que só aparece na história quando alguém para para contar direito.
E agora ele parte aos 86 anos, no Rio, enquanto a Copa começa nos Estados Unidos, México e Canadá.
A geração de 1970 sempre foi tratada menos como time e mais como teologia. Há um problema nisso: a teologia não envelhece, os homens sim.
O que se perde com Brito não é apenas um nome na lista de convocados de Zagallo. É mais uma voz direta daquele vestiário, daquele ônibus, daquele campo em Guadalajara. Os que jogaram aquela Copa vão partindo um a um, e com cada partida o acontecimento vai se tornando mais monumento e menos memória viva. Monumento não transpira, não duvida, não erra a saída de bola. Memória viva, sim.
Há uma ironia particular no fato de que a Copa de 2026 nasce sob o peso de uma comparação que jamais pediu. Toda vez que o Brasil entra em campo neste torneio, o fantasma de 1970 será convocado pelos comentaristas, pelas redes, pelos avós nas arquibancadas. É assim há décadas. A seleção de 1970 virou régua, e régua não tem misericórdia com quem é medido por ela.
Brito viveu o suficiente para ver esse peso. Para ver o futebol brasileiro oscilar entre a reverência ao passado e a incapacidade de construir algo que dispense essa reverência. Ele era parte do motivo pelo qual o presente sempre parece menor. Isso é, ao mesmo tempo, a maior homenagem e o maior fardo que se pode deixar para um esporte.
A Copa começa. Um dos seus campeões mais antigos sai de cena no mesmo instante. O futebol, quando quer, tem senso de dramaturgia que envergonha qualquer roteirista. Brito foi zagueiro. Segurou o que precisava ser segurado. Fez seu trabalho com a discrição de quem sabe que o jogo é maior do que qualquer nome individual — inclusive o seu. Essa é, talvez, a forma mais honesta de jogar futebol. E de ter vivido.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brito, zagueiro campeão em 1970, morre aos 86 anos
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo