O sábado em que a Copa decide quem merece sonhar
Análise · Marcos Tibúrcio Há jogos que são resultado. E há jogos que são destino.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há jogos que são resultado. E há jogos que são destino. Este sábado de Copa do Mundo tem os dois, em campos diferentes, com pesos distintos — mas cada um carregando o tipo de tensão que faz o torneio valer a espera de quatro anos.
Em Miami, Noruega e Inglaterra se encontram com a mesma moeda na mão: um centroavante de área, peso e finalização. Haaland tem sete gols nesta Copa. Kane tem seis. A matemática é fria, mas o que ela esconde é mais interessante do que revela. Haaland é o homem que despachou o Brasil. Kane é o homem sobre cujos ombros pesa 1966 — o ano, o troféu, a memória que a Inglaterra transforma em mito e em fardo ao mesmo tempo. Sessenta anos de fila. Seis décadas de "quase". A Inglaterra não precisa de dramatização externa: ela já carrega o seu próprio melodrama interno, cuidadosamente cultivado.
Mas nenhuma das duas seleções é uma estrela solitária com dez coadjuvantes. Odegaard e Nusa, pela Noruega, são a ameaça que explode nos espaços. Bellingham e Saka, pela Inglaterra, são a inteligência que constrói antes de concluir. O duelo dos nove pode ser a narrativa óbvia. O jogo de verdade provavelmente será decidido nos metros quadrados entre as linhas, onde meias e extremos negociam território.
O outro confronto carrega uma pergunta mais incômoda. A Argentina chega às quartas como campeã em exercício, com Messi artilheiro dividido no topo com oito gols — e com uma Copa que não tem sido exatamente um passeio. Vitórias nos acréscimos contra Cabo Verde e Egito. Contra os egípcios, especificamente, o placar virou de 0 a 2 para 3 a 2 num roteiro que gerou controvérsia: um gol do Egito anulado, um gol argentino validado em lance de natureza semelhante ao que foi recusado ao adversário. A Argentina classificou-se. O debate ficou.
A Suíça, do outro lado, não chegou até aqui por acidente. Igualou o melhor desempenho de sua história em Copas do Mundo. Há uma resiliência suíça que não aparece nos holofotes mas aparece no placar.
O problema com a Argentina não é o talento — é a inconsistência de quem parece esperar que o talento resolva o que a organização não está entregando. Três atuações apertadas em fase eliminatória não são coincidência; são sinal. E a Suíça, que faz história só de estar aqui, não virá a Miami para admirar Messi de perto. Virá para fazer o que a Copa, em seus melhores momentos, adora proporcionar: a improbabilidade funcionando como argumento.
De um lado da chave, França e Espanha já esperam. Do outro, uma vaga aberta. Neste sábado, o torneio reduz-se a dois jogos que dirão qual história merece ser contada nas próximas semanas. É sempre assim que a Copa se narra: ela elimina enredos até sobrar apenas um. O sábado começa esse trabalho.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil