Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O relógio da Fifa não para para a chuva nem para o Brasil

Análise · Marcos Tibúrcio A Fifa cogitou. Depois, não cogitou mais.

O relógio da Fifa não para para a chuva nem para o Brasil
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A Fifa cogitou. Depois, não cogitou mais. O temporal que ameaça a Cidade do México no domingo — aquela chuva grossa de planalto que não avisa antes de cair — chegou a pôr em dúvida os horários das partidas de México e Brasil nas oitavas de final desta Copa. No final, a entidade manteve a programação. O relógio não se move.

Há uma lógica implacável nisso, e ela não tem nada de esportiva. Contratos de transmissão, janelas de audiência, fusos horários negociados com broadcasters em quatro continentes — esses são os verdadeiros árbitros do calendário de um Mundial. A chuva é um inconveniente climático. O horário nobre da televisão europeia é uma cláusula contratual. Não há disputa aqui.

Mas o episódio revela algo mais do que burocracia. Ele lembra que, nesta Copa de três países e 48 seleções, a logística deixou de ser pano de fundo para virar personagem. Uma tempestade em altitude pode não cancelar um jogo — mas pode transformá-lo em algo que ninguém planejou assistir. O campo encharcado equaliza. O campo encharcado é democrático da pior maneira: tira de quem joga bem e não devolve.

E o Brasil entra nesse cenário carregando um peso que só ele carrega. É a única seleção presente em todas as oitavas de final da história das Copas do Mundo. Todas. Desde quando a competição ainda cabia num continente só. Esse número não é estatística de almanaque — é uma continuidade que resiste a gerações de jogadores, a trocas de comissão técnica, a crises de federação, a momentos que a torcida preferiria esquecer e que o tempo insiste em não apagar.

Chegar às oitavas é, para o Brasil, o mínimo esperado. É o chão. O que se discute é sempre o que vem depois.

A Noruega, do outro lado, não carrega esse tipo de continuidade histórica — carrega outra coisa: uma geração de jogadores que transformou o país num exportador de centroavantes e uma ideia de futebol direto, vertical, que desconforta quem prefere construir em triangulações. O confronto, independentemente do horário e do céu sobre o estádio, não será sobre legado. Será sobre o que acontece nos noventa minutos — ou nos cento e vinte, se o destino quiser alongar o drama.

A Fifa manteve o relógio. O temporal vai ou não vai cair. O México vai entrar em campo diante da Inglaterra com a pressão de um país inteiro nas costas, dentro de casa, na altitude que é sua maior vantagem e seu maior argumento. E o Brasil vai a campo com aquela marca que nenhuma outra seleção tem — e que, por isso mesmo, nenhuma outra seleção precisa carregar.

A programação está mantida. O resto é futebol.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Fifa mantém horários de México x Inglaterra e Brasil x Noruega

Fonte: ge