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O que o Datafolha mede não é liberalismo — é desconfiança

Análise · Luciano Aragão A pergunta que o Datafolha fez aos brasileiros é, na aparência, sobre modelo de Estado.

O que o Datafolha mede não é liberalismo — é desconfiança
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Análise · Luciano Aragão

A pergunta que o Datafolha fez aos brasileiros é, na aparência, sobre modelo de Estado. Na prática, é sobre experiência acumulada. E a experiência acumulada de quem usa o SUS na segunda-feira e tenta matricular o filho numa escola pública na sexta não produz, necessariamente, fé institucional.

A nova rodada da pesquisa mostra que mais brasileiros preferem pagar menos impostos e contratar serviços privados de saúde e educação do que pagar mais impostos em troca de serviços públicos gratuitos. O resultado circula nos grupos conservadores como confirmação de uma virada ideológica e circula nos grupos progressistas como escândalo. Nenhuma das duas leituras é útil.

O que o dado mede, antes de qualquer coisa, é a percepção de custo-benefício de uma relação que o Estado brasileiro jamais cumpriu com regularidade. O contribuinte brasileiro paga uma carga tributária comparável à de países escandinavos e recebe, em troca, serviços que variam entre o razoável e o inaceitável conforme o município, o estado e o governo da vez. A preferência declarada por pagar menos não é, portanto, necessariamente uma adesão ao ideário de Milton Friedman. É o registro de uma decepção.

Há uma distinção que a pergunta do Datafolha não consegue capturar — e que a cobertura do resultado tende a ignorar. Uma coisa é o eleitor que rejeita o imposto porque rejeita o Estado. Outra, bem distinta, é o eleitor que rejeita o imposto porque aprendeu, pela vida, que o Estado raramente aparece quando acionado. O segundo grupo não é ideológico; é pragmático. E é provavelmente maior.

Traduzir desconfiança em preferência por menos Estado é um erro de categoria. O dado diz o quê as pessoas querem pagar. Não diz o porquê.

A implicação política do resultado é dupla e contraditória. Para a direita, a pesquisa oferece munição retórica para a pauta da desoneração — sem que isso implique, necessariamente, que o eleitorado aceite os cortes de serviço que viriam junto. Para a esquerda, o dado é um inventário do que não foi entregue, não uma rejeição ao projeto redistributivo em si. Governos que melhoraram a qualidade percebida do serviço público — não a quantidade de gasto, a qualidade percebida — produziram eleitorados menos hostis à tributação. Não é teoria; está no registro histórico.

O Datafolha fotografou uma opinião. Opiniões sobre política fiscal são as mais voláteis que existem: mudam com a fila do pronto-socorro, com o boletim escolar, com a obra da prefeitura que ficou pela metade. O que permanece estável, e isso o dado captura com precisão, é a descrença na equação. O brasileiro não acredita que o que paga volta na forma do que precisa. Essa descrença é o problema estrutural. A preferência declarada por menos imposto é apenas o sintoma que aparece na pergunta fechada de um questionário.

Debater o resultado como se fosse uma eleição — quem ganhou, quem perdeu, qual campo deve se preocupar — é desperdiçar o único dado útil que a pesquisa contém.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Datafolha aponta preferência por redução de impostos em detrimento

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.