O que sumiu do para-choque do ônibus
Crônica · Heitor Graça O homem olhava para o banco do ônibus com uma expressão que não era exatamente de alívio, mas era parente próximo disso.
Crônica · Heitor Graça
O homem olhava para o banco do ônibus com uma expressão que não era exatamente de alívio, mas era parente próximo disso. Naquele espaço onde, até ontem, havia um logotipo verde-limão prometendo bônus de boas-vindas, agora havia apenas o metal amassado e os anos. O banco era feio, como sempre foi. Mas era só um banco.
O Rio de Janeiro acordou nesta segunda-feira com um decreto da prefeitura que proíbe a publicidade de plataformas de apostas nos espaços públicos da cidade. A medida entrou em vigor no mesmo instante em que foi publicada no Diário Oficial, alcançando painéis externos, mobiliário urbano e qualquer espaço cuja exploração dependa de autorização municipal. A fiscalização ficará com a Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização, a quem cabe retirar as peças e aplicar as sanções previstas em lei.
Mas isso é o decreto. A crônica é outra coisa.
A crônica é a calcada da Visconde de Pirajá com aqueles cartazes que aprendemos a não ver de tanto ver. É o ponto de ônibus na Sete de Setembro onde a criança de oito anos espera a mãe voltar do trabalho e lê, sem querer, o nome de um aplicativo de aposta porque a letra é grande e colorida e feita exatamente para olhos que ainda não aprenderam a desviar. É o quiosque de Copacabana com o patrocínio estampado na sombrinha, no guardanapo, na camiseta do atendente.
O prefeito Eduardo Cavaliere comparou o efeito dessa publicidade ao do cigarro, e citou um número que dói na memória: com a proibição da propaganda do tabaco, o Brasil passou de um fumante a cada três brasileiros para um fumante a cada nove. A publicidade não apenas vende; ela naturaliza. Ela instala no olhar a ideia de que aquilo é normal, esperado, parte da paisagem.
A medida acompanha um movimento do governo federal, anunciado na quinta-feira passada. O Rio, como sempre, faz do gesto coletivo um gesto próprio, imprime nele a cara do lugar.
Não sei se vai funcionar. As apostas continuam existindo, os aplicativos continuam no bolso de todo mundo, a internet não tem para-choque de ônibus para descolorir ao sol. Mas há algo que muda quando uma cidade decide que certas coisas não precisam estar em todo lugar. Uma espécie de pudor urbano que não resolve nada sozinho e ainda assim significa alguma coisa.
O homem desceu na Central. Deixou para trás o banco de metal amassado, vazio de logotipo, feio como sempre foi. Só um banco.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Rio de Janeiro proíbe publicidade de bets em espaços públicos
Fontes: Agência Brasil · CNN Brasil