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O progresso existe. Ele só não chegou a todo mundo

Análise · Dra. Camila Torres Vinte e seis mil mortes por dia.

O progresso existe. Ele só não chegou a todo mundo
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Análise · Dra. Camila Torres

Vinte e seis mil mortes por dia. É a cadência atual do câncer no mundo — quase uma morte a cada três segundos, enquanto laboratórios anunciam imunoterapias, editores de genoma e protocolos de precisão molecular que chegam às páginas das melhores revistas científicas. O Relatório Global sobre a Situação do Câncer de 2026, produzido pela OMS em parceria com a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, coloca esses dois mundos lado a lado e força o desconforto: o progresso existe, mas ele é geograficamente seletivo.

Os números projetados são, por si só, pesados. Os 20,6 milhões de novos casos anuais de hoje podem chegar a quase 35 milhões até 2050. Mas o aspecto mais perturbador do relatório não está na escala da epidemia — está na arquitetura da desigualdade que a sustenta. Em países de alta renda, 87% das mulheres com câncer de mama sobrevivem pelo menos cinco anos após o diagnóstico. Em países de baixa renda, esse número cai para 42%. Para o câncer infantil, a discrepância é ainda mais brutal: taxas de sobrevivência superiores a 85% nos países ricos, abaixo de 30% nos mais pobres. A diferença entre sobreviver e morrer de câncer, em boa parte do planeta, é menos uma questão de biologia e mais uma questão de CEP.

O acesso a medicamentos segue a mesma lógica. Dos 20 fármacos considerados prioritários pela OMS para o tratamento oncológico, apenas entre 9% e 54% estão disponíveis nos países de baixa e média-baixa renda. Nos países ricos, esse percentual sobe para entre 68% e 94%. E vinte e três países, segundo o relatório, não possuem sequer instalações de radioterapia — tecnologia que já tem décadas de uso e que permanece ausente de parcelas inteiras do mapa.

"Durante anos, a história contada sobre o câncer foi sobre progresso científico, novas tecnologias, novos tratamentos, novas esperanças. Essa história é verdadeira e merece ser contada, mas não é toda a história." — Dr. Andre Ilbawi, líder da equipe de controle do câncer da OMS

A frase de Ilbawi é cirúrgica porque nomeia uma distorção narrativa que a medicina pratica há décadas: a de confundir o avanço das fronteiras do conhecimento com avanço das condições reais de cuidado. O relatório mostra que a África Subsaariana registra taxas de diagnóstico de câncer menores do que regiões mais ricas — o que poderia, equivocadamente, sugerir menor incidência —, mas concentra um número desproporcionalmente alto de mortes. Não é ausência de doença; é ausência de diagnóstico. Uma distinção que custa vidas.

Há ainda o dado que raramente entra nas manchetes sobre oncologia: pelo menos 45% dos pacientes com câncer enfrentam dificuldades financeiras decorrentes da doença, mais da metade relata impacto em saúde mental, e quase a totalidade dos cuidadores descreve sobrecarga e isolamento social. O câncer não é apenas uma doença do corpo — é um evento econômico, familiar e emocional que a medicina clínica sozinha não resolve. Em menos de um terço dos países o tratamento oncológico está incluído em pacotes básicos de saúde garantidos pelo Estado. No restante, o paciente paga ou não trata.

Cerca de quatro em cada dez casos de câncer estão associados a fatores de risco evitáveis — tabagismo, consumo de álcool, infecção por HPV e hepatites B e C, obesidade, sedentarismo, poluição do ar. Isso não é fatalidade biológica. É, em larga medida, política pública mal feita ou inexistente. O relatório da OMS não descreve apenas uma projeção epidemiológica. Descreve uma escolha coletiva que ainda pode ser refeita — desde que o centro da conversa deixe de ser apenas a ciência que cura e passe a incluir o sistema que distribui, ou não distribui, essa cura.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: OMS projeta quase dobro de casos de câncer até 2050

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.