O presidente que a economia não perdoa
Análise · Beatriz Fonseca Há uma ironia estrutural no dado publicado pela Folha de S.Paulo em 7 de abril: Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente…
Análise · Beatriz Fonseca
Há uma ironia estrutural no dado publicado pela Folha de S.Paulo em 7 de abril: Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que mais vezes associou seu nome à política econômica como instrumento de legado, é também aquele cuja aprovação popular se move com maior intensidade ao sabor da inflação e do desemprego nos últimos trinta anos. Não é uma coincidência. É, muito provavelmente, uma consequência.
Para entender o que esse dado significa, é preciso separá-lo do que ele não diz. Ele não diz que Lula é impopular. Diz que a relação entre a economia e a aprovação presidencial nunca foi tão direta quanto neste terceiro mandato. A magnitude da sensibilidade importa mais do que o nível da aprovação em si — porque ela revela algo sobre o contrato político que o eleitorado estabeleceu com este governo.
Lula construiu sua identidade pública em torno de dois eixos: o trabalhador que chegou ao poder e o governante que melhorou a vida dos mais pobres. Nos dois mandatos anteriores, esse capital simbólico funcionou como amortecedor. A aprovação oscilava, mas havia uma reserva de identificação que sustentava o presidente mesmo quando os indicadores pioravam. O que o levantamento sugere é que esse amortecedor perdeu espessura.
Uma hipótese plausível, e quero marcá-la como interpretação minha, é que o terceiro mandato começou com um eleitorado que votou em Lula em condições distintas das de 2002 e 2006. Em 2022, o voto foi, em proporção relevante, um voto de contraste — contra o governo anterior — e não necessariamente um voto de adesão entusiástica ao projeto. Esse eleitor de contraste tem menos razões afetivas para sustentar a aprovação quando a inflação corrói o orçamento doméstico.
Há também uma dimensão geracional. O eleitor que viveu os anos de bonança do primeiro e segundo mandatos e associou aquele período à liderança de Lula está, em 2025, em outro momento de vida. O eleitor jovem que chegou às urnas em 2022 não tem essa memória incorporada. Para ele, Lula não é uma promessa cumprida — é um governo em curso, avaliado pelo presente.
A aprovação presidencial sempre foi sensível à economia. O que muda aqui é o coeficiente — a velocidade com que um ponto de inflação ou um ponto de desemprego se converte em queda de aprovação. Quando esse coeficiente é o maior em trinta anos, o governo perde a margem de erro que presidentes anteriores tinham.
Isso tem implicações práticas para a política fiscal e para o calendário político. Com eleições municipais no retrovisor e presidencial no horizonte de 2026, a gestão da percepção econômica deixa de ser questão secundária para se tornar a variável central de sobrevivência eleitoral. O Palácio do Planalto sabe disso, e saber disso já muda o tipo de decisão que se toma.
O que permanece em aberto é se a sensibilidade que o dado revela é uma característica deste mandato específico ou se estamos diante de uma mudança mais longa na forma como o eleitorado brasileiro processa a relação entre governo e bem-estar material.
Beatriz Fonseca é chefe de Política da Xaplin.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Aprovação de Lula é mais sensível à inflação e ao desemprego em 30
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL