O eleitor de Lula mudou. Lula ainda não percebeu
Análise · Luciano Aragão Havia uma crença, cultivada por décadas no PT e alimentada pelos resultados eleitorais de 2002 e 2006, de que Lula tinha…
Análise · Luciano Aragão
Havia uma crença, cultivada por décadas no PT e alimentada pelos resultados eleitorais de 2002 e 2006, de que Lula tinha com seu eleitorado uma relação que os economistas chamam de inelástica — o apoio resistia a choques externos com uma firmeza que nenhum outro presidente republicano havia conseguido construir. A pesquisa da Folha de S.Paulo desfaz essa crença com a frieza de um dado longitudinal: no terceiro mandato, a aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva é a mais sensível à inflação e ao desemprego entre todos os presidentes dos últimos trinta anos.
O dado não é sobre Lula. É sobre o eleitor.
A base que elegeu Lula em 2022 não é a mesma que o elegeu em 2002. Em dois decênios, o trabalhador brasileiro foi progressivamente incorporado ao mercado de consumo, ao crédito, ao PIX, à entrega por aplicativo. Ele tem conta no banco, parcela no cartão e acompanha o preço do gás de cozinha com uma atenção que nenhuma geração anterior teve instrumentos para exercer. Esse eleitor não vota por lealdade afetiva — vota pelo que sente no bolso no mês anterior à pesquisa. A vinculação emocional que Lula construiu entre 1980 e 2010 não transfere proteção automática para um mandato iniciado em 2023.
Há uma ironia estrutural aqui. O sucesso dos governos anteriores do PT — a bancarização, a ascensão da classe C, o acesso ao crédito — produziu exatamente o perfil de eleitor que menos tolera inflação. Quem tem dívida sente o juro. Quem compra no mercado sente o preço. Quem depende de renda informal sente o desemprego antes que o IBGE o registre. O PT ajudou a criar o eleitor mais exigente da história recente do país. E agora governa para ele.
O paradoxo não é pequeno: quanto mais bem-sucedida foi a política de inclusão dos anos anteriores, menor é a margem de tolerância econômica do eleitorado que ela formou.
O Palácio do Planalto ainda opera com a cartilha de 2005 — narrativa de vitória contra a pobreza, protagonismo do presidente em transferências de renda, comunicação emocional sobre origem e trajetória. Essa cartilha funcionou quando o eleitor precisava acreditar em algo. Agora ele tem extrato bancário, e o extrato conta outra história.
A inflação de alimentos não é uma abstração para quem faz compras. O desemprego não é estatística para quem conhece alguém que perdeu o trabalho. E a sensibilidade da aprovação presidencial a esses dois indicadores, a mais alta em trinta anos, sugere que o vínculo entre Lula e seu eleitorado passou a ser transacional onde antes era simbólico.
Isso não decreta o fim do governo nem antecipa resultado eleitoral nenhum. Decreta, apenas, que o modelo de sustentação política que Lula conhece deixou de funcionar como ele conhece. O presidente mais experiente da República Democrática brasileira governa, neste mandato, num terreno que não reconhece.
Luciano Aragão
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Aprovação de Lula é mais sensível à inflação e ao desemprego em 30
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL